Mulheres e meninas na Ciência: Pará avança para reduzir desafios e ampliar conquistas
A Fapespa, fortalecendo seu papel como agência de fomento, elabora e executa ações que incentivam a equidade de gênero no campo científico
A bionanotecnologia permite a transformação de matérias-primas naturais em produtos de alto valor agregado. Isso pode fortalecer a cadeia produtiva local, criando oportunidades econômicas para comunidades extrativistas e agricultores, além de atrair investimentos para a região. Pensando nisso, a pesquisadora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (UFPA), Marcelle Fonseca Passos, idealizou e desenvolve a pesquisa "Bionanovetores: estratégia tecnológica sustentável e bioeconômica".
A pesquisadora explica que “bionanovetores são sistemas ou estruturas desenvolvidos em escala nanométrica, que atuam como transportadores inteligentes de substâncias bioativas em contextos diversos, como saúde, cosmetologia e agricultura. Por exemplo, eles podem carregar compostos naturais de óleos essenciais para combater microrganismos em produtos médicos ou melhorar a permeação de nutrientes em cosméticos. Mostra que podemos sair de simples fornecedores de matérias-primas para termos aqui no Pará capacidade instalada e geração destes produtos".
Coordenadora do Laboratório de Biomateriais, Bioprodutos e Tecnologias de Biofabricação da UFPA, situado no Instituto de Ciências Biológicas, Marcelle recebe apoio da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) em seu projeto de bionanovetores, que busca transformar resíduos e ativos da Amazônia em moléculas que tenham alto valor agregado e possam ser relacionados para as áreas de Farmácia, Agricultura e Saúde.
Inovação - O projeto na área de Engenharia de Materiais e Metalúrgica, com ênfase em materiais não-metálicos e no desenvolvimento de soluções baseadas na natureza, visa gerar inovação tecnológica sustentável, capacitar mulheres na área de engenharias e nanotecnologia, e criar produtos bioeconômicos que utilizem recursos naturais da Amazônia. Além disso, promove a inclusão de comunidades locais como fornecedoras de insumos, fortalecendo a economia regional.
“O apoio da Fapespa foi fundamental para viabilizar o projeto, fornecendo recursos para pesquisa, desenvolvimento e capacitação, o que possibilita a criação de infraestrutura, consolidação de redes de pesquisa, formação de pesquisadores, internacionalização dos estudos, implementação de tecnologias inovadoras e potencial transferência de tecnologia, com benefícios para a sociedade e a economia da região”, ressalta Marcelle Passos.
Entre os recursos da Fapespa para a execução do projeto está a bolsa concedida à pesquisadora Luciana Eiró Quirino, para atuação no Laboratório da UFPA. "Neste 11 de fevereiro, quero deixar uma mensagem de incentivo às mulheres na pesquisa. Por muito tempo, nós fomos deixadas de lado e não tivemos o devido reconhecimento na ciência brasileira e mundial. Que este dia sirva não apenas como um lembrete de que nós podemos, mas como uma reafirmação, para a sociedade e para nós mesmas, de que fazemos ciência de qualidade. Se hoje sou doutora em Farmacologia e Bioquímica pela UFPA é porque outras mulheres vieram antes de mim e abriram caminhos", reitera Luciana Quirino.
Incentivo às pesquisadoras - Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, em 2023, a participação das mulheres nos grupos de pesquisa vinculados ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) no Brasil chegou a 52%, superando a dos homens, o que representa uma mudança importante em termos de representatividade nos grupos científicos do País.
Apesar dos avanços, a participação feminina na ciência ainda enfrenta desigualdades estruturais no Brasil e em outros países. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2022 apenas cerca de 31,1% dos pesquisadores eram mulheres, e em áreas de ponta, como Inteligência Artificial, essa proporção pode cair para 22% ou menos. Dados globais apontam que, em muitos campos científicos, as mulheres continuam sendo minoria, especialmente em posições de comando e reconhecimento acadêmico.
No Pará, nos editais lançados pela Fundação, é notória a supremacia dos homens proponentes. Contudo, essa diferença vem diminuindo, e até superada, quando analisados os proponentes aprovados, refletindo a necessidade de motivação para aumentar a submissão de propostas por mulheres, segundo a coordenadora de Ciência e Tecnologia da Fapespa, Carina Silva.
“Daí a importância de a Fapespa, como agência de fomento, elaborar e executar ações que busquem colaborar para a equidade de gênero na ciência, alinhada, dessa forma, com a política do governo do Estado", enfatiza a coordenadora.
Edital específico - Nesse cenário, a Fapespa tem se destacado por realizar ações voltadas à promoção da participação feminina na ciência e na pesquisa científica no Pará. Em 2024, a Fundação publicou edital específico voltado ao fortalecimento de grupos de pesquisa liderados por mulheres. A Chamada Pública n º 003/2024, intitulada “Fortalecimento de Grupos de Pesquisa Liderados por Mulheres no Pará”, recebeu 176 propostas exclusivas de pesquisadoras, e contemplou 10 projetos com financiamento de até R$ 600 mil cada, totalizando aproximadamente R$ 6 milhões.
Esses projetos abrangem áreas diversas, incluindo ciências biológicas, engenharias e educação, bem como temas sociais e ambientais estratégicos para a Amazônia, como saúde coletiva, conservação da biodiversidade, educação inclusiva e aplicações tecnológicas sustentáveis.
Além do financiamento direto à pesquisa, parte dos recursos foi destinada à formação profissional, com bolsas de iniciação científica e de pós-doutorado, como a da pesquisadora Luciana Quirino, ampliando oportunidades de desenvolvimento de carreira para pesquisadoras no Estado. O investimento de R$ 2.376.000,00 em formação de recursos humanos permitiu o fomento de 20 bolsas de iniciação científica e 20 bolsas de Pós-Doutorado Júnior.
Já no último edital de apoio à realização de eventos científicos, tecnológicos e de inovação, a Fapespa destinou R$ 5 mil a mais, como incentivo financeiro, exclusivamente aos projetos que incluíram espaço para recreação infantil. A iniciativa é pioneira entre as instituições estaduais que promovem o financiamento da pesquisa, e vem estimulando a participação de mães na ciência.
Outra iniciativa da Fundação é o aumento da avaliação do tempo curricular de pesquisadoras que já são mães. A Fundação fornece prazos maiores às profissionais para conclusão de seus trabalhos durante a gestação ou enquanto cuidam de filhos pequenos, por entender que a gravidez e a maternidade precisam ser valorizadas, e não podem se constituir em dificuldades que levem à desistência da pesquisa e da vida profissional.
No Pará, e em outros estados do Brasil, iniciativas como as da Fapespa ajudam a reduzir barreiras estruturais, a criar redes de apoio para mulheres e a fortalecer projetos que aliam ciência, sustentabilidade e desenvolvimento local.
