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VIOLÊNCIA PSICOLÓGICA

Fundação ParáPaz orienta sobre violência psicológica e garante acolhimento às mulheres

Mesmo sendo crime, a violência psicológica ainda passa despercebida por muitas vítimas e provoca danos silenciosos que comprometem a autoestima, a saúde emocional e a autonomia das mulheres.

Por Nathalia Mota (PARAPAZ)
31/03/2026 14h35
Escuta qualificada e orientação social para fortalecer mulheres e garantir acesso aos seus direitos

“Tentava terminar e ele dizia que ia mudar. Foram os meses mais longos da minha vida, nunca tinha vivido isso”, lembra a advogada e professora Marta*, 40 anos, ao falar do relacionamento em que sofreu violência psicológica.

Os dados levantados em 15 unidades da Fundação ParáPaz mostram que, de janeiro a dezembro de 2025, foram registrados mais de cinco mil atendimentos de violência doméstica, sendo mais de três mil relatos de violência psicológica, crime previsto na Lei Maria da Penha.

São meninas e mulheres de diferentes idades e profissões que, aos poucos, vão perdendo sua identidade por medo de ficar e de sair da relação. Por isso, especialistas alertam que reconhecer sinais como humilhações, manipulação, chantagem emocional, ameaças, constrangimentos e isolamento é um passo essencial para interromper o ciclo da violência e buscar apoio.

Segundo a advogada da Fundação ParáPaz, Indira Moura, é importante que as mulheres entendam que a agressão nem sempre acontece de forma visível e que a lei também protege casos em que o dano é emocional.

“O depoimento da vítima é uma prova importante e pode ser confirmado por outros meios legais. Após a denúncia, a Justiça pode conceder medidas protetivas e responsabilizar o agressor. A pena prevista é de 6 meses a 2 anos de prisão, além de multa”, explicou.

Superação – Marta conta que o relacionamento durou poucos meses, mas ela já não sabia como sair daquela situação mesmo o companheiro não ajudando nas despesas, desmerecendo o trabalho dela, insistindo para que ela deixasse de dar aulas e a afastando de amigos e familiares.

Depois de terminar e voltar algumas vezes, sempre com promessas de mudança, o relacionamento chegou ao fim e Marta continuou sofrendo violência psicológica, foi quando decidiu buscar ajuda especializada na Fundação ParáPaz. Segundo ela, o acolhimento foi um divisor de águas e marcou o início do processo de recuperação emocional, quando finalmente conseguiu entender o que estava vivendo.

Com o acompanhamento psicológico ela se reconstruiu e com metas simples do dia a dia, foi recuperando a vontade de voltar à rotina que sempre teve na vida pessoal e profissional. “Quando eu cheguei, abalada, sem saber quem eu era, a psicóloga me atendeu e foi paciente. Durante as sessões ela me orientava e colocava pequenas metas. Foi todo um trabalho formidável que mudou a minha vida”, afirmou.

Hoje, ela afirma que conseguiu sair do ciclo de violência e destaca a importância de buscar ajuda. “Até me emociono, me sinto orgulhosa de ter enfrentado tudo isso. Acho que precisamos mesmo falar porque tem muita mulher morrendo, porque esse ciclo de violência psicológica é tão doloroso quanto uma violência física”, contou.

Em outro caso, a supervisora de vendas Roberta*, de 36 anos, procurou acolhimento na Unidade Integrada da Fundação ParáPaz em Marabá, na região Sudeste do Estado, após sair de um relacionamento de oito anos marcado por agressões constantes.

Segundo ela, mesmo depois da separação, o ex-companheiro passou a usar a filha, que na época tinha onze meses, como forma de retaliação. “Nunca foi pela minha filha. Ele a usa pra me atacar. Não ajuda financeiramente e só pensa em me afetar através dela”, relatou.

Ela conta que precisou buscar apoio psicológico e jurídico para enfrentar esse período tão delicado. “Procurei a unidade da ParáPaz e fui bem orientada com a psicóloga e com a advogada. Teve uma fase que eu fiquei sem ver minha filha e acordava à noite delirando, procurando pela casa. Foi muito sofrimento”, disse.

Danielly Alcântara, psicóloga da Fundação ParáPaz, atua no acolhimento e acompanhamento de meninas e mulheres vítimas de violência.

Acolhimento especializado - A psicóloga Danielly Alcântara, que atua diariamente no acolhimento às meninas e mulheres vítimas de violência na unidade ParáPaz Mulher, em Belém, explica que “a violência psicológica é difícil de identificar porque não deixa marcas visíveis, mas desorganiza o funcionamento psíquico. Quando essa violência não é reconhecida socialmente, o dano se duplica e a mulher sofre o abuso e a invalidação”.

Ainda segundo a profissional, muitas mulheres chegam com sintomas comuns de quem vive violência psicológica e quando ela não percebe que está dentro de um ciclo de violência e não procura ajuda, os prejuízos emocionais vão se acumulando.

“É muito comum vermos mulheres com ansiedade constante, tristeza que não passa, sensação de vazio, cansaço extremo, irritação ou apatia. São sinais claros de que algo não está bem, mas que muitas vezes são ignorados”, completou. 

Apesar de a lei prever punição para o agressor, a decisão de denunciar precisa ser construída com segurança e apoio, lembrou a psicóloga Danielly. “Muitas mulheres sentem vergonha ou medo de denunciar, mas é importante reforçar que a responsabilidade pela violência nunca é da vítima. Enquanto serviço psicológico ou psicossocial, nosso papel é acolher sem julgamento, validar esse sofrimento e fortalecer a autonomia, para que cada mulher possa compreender seus direitos e decidir, com segurança, o melhor momento de buscar ajuda e proteção da rede”, frisou.

Rede de proteção - A Fundação ParáPaz conta com unidades integradas à Delegacia da Mulher (Deam), com estrutura preparada para acolhimento humanizado, salas reservadas e equipes multidisciplinares. Nesses espaços, as vítimas recebem orientação, acompanhamento psicológico e social, encaminhamentos para serviços de saúde e apoio na garantia de direitos, fortalecendo a rede de proteção e ajudando no rompimento do ciclo da violência.

Unidade ParáPaz Mulher, em Belém, oferece acolhimento gratuito e especializado para meninas e mulheres em situação de violência

Na Região Metropolitana de Belém, são quatro unidades: ParáPaz Mulher, em Belém; Ananindeua (Casa da Mulher Brasileira); Icoaraci; e Sala Lilás, em Marituba, onde foram registrados mais de 1.800 acolhimentos de janeiro a  dezembro de 2025, sendo 771 em Belém e 452 em Ananindeua.

No interior, o atendimento também é realizado em unidades integradas nas regionais com Deam e Deaca, em municípios como Altamira, Bragança, Breves, Marabá, Paragominas, Parauapebas, Santarém e Tucuruí, além de unidades em Santa Maria do Pará, Santa Izabel e Vigia.

Denúncia – Em casos de violência contra a mulher, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher),  181 (Disque-Denúncia) ou 190.

*Obs.: Foram utilizados nomes fictícios para preservar a identidade das vítimas.