Baile de Carnaval faz parte de terapia no Caps Grão-Pará

O baile de Carnaval serve para promover a reinserção social das pessoas com transtorno mental e a integração entre usuários

13/02/2020 14h49 - Atualizada em 13/02/2020 15h49
Por Roberta Vilanova (SESPA)

O Centro de Atenção Psicossocial Grão-Pará (Caps) da Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) realizou, nesta quarta-feira (12), um baile de Carnaval, para promover a reinserção social das pessoas com transtorno mental e a integração entre usuários, familiares e profissionais do serviço que integra a Rede de Atenção Psicossocial do Sistema Único de Saúde (Raps) no Pará.

Banda do Rancho Não Posso Me Amofiná.

Com 20 anos de funcionamento, o Grão-Pará está inserido na Raps como Caps tipo III porque dispõe de nove leitos, que funcionam 24 horas, para o acolhimento de pacientes com maior necessidade de cuidados, que podem permanecer por um período de até 15 dias.

O baile de Carnaval contou com a animação da banda do Rancho Não Posso me Amofiná e apresentação do personagem Epaminondas Gustavo, criado pelo juiz Cláudio Rendeiro, que entraram como parceiros na programação. Os participantes também tiveram direito a um lanche especial.

A decoração da festa e todos os acessórios carnavalescos foram confeccionados pelos próprios usuários do serviço nas oficinas, como o colar havaiano feito de EVA.

Carnaval Caps Grão Pará

No Caps, o indivíduo com transtorno mental é acolhido e inserido em atividade que compõem o seu Projeto Terapêutico Singular (PTS), que também inclui a família para serem trabalhadas as questões inter-relacionais que envolvem o adoecimento mental.

Além do atendimento individual por equipe multidisciplinar, composta por médicos psiquiatras, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas, educadores físicos, técnicos de enfermagem e agentes administrativos, o usuário participa de diversas atividades tais como Educação em Saúde, oficinas terapêuticas (tapetes, beleza, leitura, informativa, pintura e croché, criativa), grupos (vivências, expressivo, de famílias, de jovens) e atividade esportiva e projetos.

Epaminondas Gustavo em uma performance de Carnaval.

Participação

A diretora do Caps Grão-Pará, Dineuza Veiga, informou que toda primeira segunda-feira de cada mês acontece uma assembleia geral com a participação de usuários, familiares e servidores, na qual é discutido todo o planejamento e processo de trabalho. Na assembleia, os usuários dão sugestões e são eles que escolhem as datas comemorativas que desejam fazer programação ao longo do ano. “Nós avaliamos o mês que passou e planejamos as atividades do mês que está iniciando. É uma assembleia bem democrática, até porque o trabalho do Caps é pautado na democracia e participação coletiva”, disse a diretora do Caps Grão-Pará.

Dineuza Veiga, diretora do Caps Grão-Pará.

Segundo a enfermeira e vice-diretora do Caps Grão-Pará, Marisa Santos, ao promover a ressocialização do usuário em tratamento, o Caps visa a mostrar que o transtorno mental não inviabiliza a vida em sociedade e que as oportunidades de acesso aos direitos e à dignidade precisam ser garantidas. “Ressocializar o usuário é reinseri-lo na sociedade. Quantas pessoas hoje ainda tem o preconceito e desprezam a pessoa que tem um transtorno mental? Então, o Caps vem para mostrar que a pessoa é um ser humano como qualquer outro. Elas têm uma debilidade que pode ser tratada e o Caps oferece essas atividades para que elas se sintam úteis para a sociedade, sintam-se parte dela, recebam a dignidade delas de volta e o tratamento humanizado. Tudo o que o Caps puder fazer para atender às necessidades desses usuários, o Caps vai fazer”, afirmou a vice-diretora.

Marisa Santos, vice-diretora do Caps Grãos-Pará

A usuária do Caps Grão-Pará, Rose Ellen Carvalho, dona de casa de 39 anos, que faz acompanhamento há 17 anos, afirmou que a importância do Caps na sua vida foi fundamental. Ela contou que descobriu a bipolaridade em 2001 e passou a se tratar no Caps em 2002, quando estava com nível de euforia elevado, o que a deixava sem equilíbrio para comer, dormir e se comunicar. No entanto, apesar de o psiquiatra prescrever medicamentos controlados, ela relutava em aceitar que necessitava desse tipo de medicação para se tratar. “Então, eu passei relutando por dez anos. Até que eu entendi que me faria bem e desde que passei a tomar corretamente a medicação, acho que de 2012 para cá, eu tive uma melhora grandiosa e consigo viver uma vida normal”, relatou a usuária do serviço.

Atualmente, ela frequenta o Caps duas vezes por semana e elogia os profissionais que a atendem. “Eles te acompanham de perto, sabem como é a tua rotina e em que precisam te ajudar, eles têm um diálogo aberto contigo”, disse Rose Ellen.

Estágio

O Caps Grão-Pará também é campo de estágio para estudantes dos cursos da área de Saúde da Universidade do Estado do Pará (Uepa) e Universidade Federal do Pará (UFPA).

A estudante do último ano de Medicina da Uepa, Lavínia Tavares, começou o estágio em Saúde Mental nesta semana no Caps juntamente com outros colegas do curso. Ela disse que espera ter uma experiência boa e aprender um pouco mais sobre outras abordagens profissionais na atenção ao paciente com transtorno mental, porque, muitas vezes os estudantes ficam restritos à consulta médica. “Porém, aqui, conseguimos ver algo que ajuda muito o paciente, que é a abordagem multidisciplinar e diversas atividades, que talvez sejam mais importantes do que o uso de medicamentos. A gente aprende que tal doença deve ser tratada com tal medicamento e mais “medidas terapêuticas”, mas na universidade, nós não temos contato com essas “medidas terapêuticas” porque é competência de outros profissionais”, explicou Lavínia Tavares.

Além do trabalho dos outros profissionais no tratamento de pacientes com transtorno mental, Lavínia destacou a importância do suporte social que é oferecido a eles. “Aqui no Caps, a gente consegue ver que, inclusive pacientes que não têm o apoio da família e dos seus entes queridos, têm aqui por parte dos profissionais de saúde. Isso influencia muito no bom prognóstico e na melhora deles. Eles se sentem acolhidos verdadeiramente, eles sentem que não estão sendo tratados apenas por conta do problema de saúde, mas também estão sendo vistos e tratados como pessoas pelos profissionais de saúde”, argumentou a estudante de medicina.

Serviço 

No Pará, além de diversos Capss instalados em todos os municípios das 13 Regiões de Saúde, a população conta com seis Centros que estão sob gestão estadual localizados em Belém e Santarém. O usuário pode ir diretamente ao mais próximo da sua casa, não precisa de encaminhamento. Acesse o link a seguir e veja qual o Caps mais perto da sua casa: http://www.saude.pa.gov.br/cidadao/hospitais/centros-de-atencao-psicossocial-caps/