Capacitação em Libras melhora acolhimento ao surdo no mercado de trabalho

08/11/2019 22h22 - Atualizada em 11/11/2019 09h52
Por Governo do Pará (SECOM)

Ana Cláudia Caldas, 31 anos, procura emprego há um mês. Além de enfrentar as dificuldades decorrentes da crise no mercado de trabalho, ela também convive com outro desafio: Ana é surda desde quatro meses de idade. Ela se comunica por Língua Brasileira de Sinais (Libras) e é oralizada - aprendeu a pronunciar algumas palavras e tem habilidade em ler lábios.

Ana Claudia CaldasAs características pessoais ajudaram Ana Cláudia a construir uma trajetória profissional desde os 18 anos. Já atuou em áreas administrativas de farmácia, hospitais e de uma loja de shopping. "Não tinha comunicação na empresa. Ninguém interagia comigo, não tinha intérprete. Era o dia todo, os ouvintes me olhavam, eu me sentia diminuída, humilhada. Eu agradeci, mas preferi sair, e agora estou procurando outro emprego", contou ela, com o auxílio de intérprete.

A realidade relatada por Ana Cláudia, resultado das dificuldades na inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho, vem ganhando a atenção de vários segmentos, que desenvolvem ações destinadas ao enfrentamento de problemas no dia a dia de pessoas com deficiência (PcD). Uma dessas ações capacita, neste mês, funcionários de empresas cadastradas no Sistema Nacional de Empregos (Sine) no Estado do Pará, com uma oficina de Libras, promovida no Centro Integrado de Inclusão e Cidadania (CIIC), da Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (Seaster), em Belém.

Representantes de 14 empreendimentos participam dos encontros, que utilizam dinâmicas e técnicas para assimilação dos sinais de Libras em situações dentro e fora do ambiente de trabalho. Com carga horária de 10 horas, divididas em quatro aulas semanais, os participantes recebem o conteúdo programático, que inclui atividades teóricas e práticas dentro dos temas alfabeto; saudações e cumprimentos; diálogos; numerais; valores e horas. “Estamos ofertando a oficina por sentirmos a necessidade de algumas empresas em inserir nos seus departamentos de recursos humanos a maneira adequada de interagir com pessoas surdas”, explicou Felipe Bordalo, coordenador do CIIC.

A facilitadora é a assistente social Nazaré Saldanha, que também estuda Letras/Libras na Universidade do Estado do Pará (Uepa). “Nós trabalhamos com a intermediação de mão de obra da pessoa com deficiência, pois legalmente toda empresa com mais de 100 colaboradores precisa ter um percentual dentro desse perfil. Elas têm receio de contratar o surdo por não conseguir se comunicar. Então, ele fica em situação de desigualdade”, explicou Nazaré Saldanha.

Diferença - Essa dificuldade pode ser sentida na empresa onde atua a técnica em Segurança do Trabalho Suelen Monteiro. Ela é uma das alunas da oficina, e disse que já sentiu a diferença no tratamento dado aos funcionários que não ouvem. “Contratamos dois surdos e pude explicar melhor para eles os cuidados necessários para o desempenho das atividades”, contou.

Já no grupo onde a psicóloga Nathaly Freire trabalha, o ambiente é mais receptivo para pessoas com deficiência auditiva. “De 30 PCDs, contratamos quase 25 com essa condição, pois eles têm menos limitações físicas e precisamos de certa agilidade no dia a dia. São pessoas amistosas, grupos solícitos. A capacitação é uma forma de retribuir. Penso em levar o treinamento para dentro do trabalho, para as equipes”, acrescentou Nathaly Freire, que considera essa iniciativa uma forma efetiva de garantir direitos. “O colaborador feliz é aquele que se sente respeitado”, afirmou.

Promover um ambiente que invista no reconhecimento profissional do surdo é um grande avanço, avaliou Ana Cláudia Caldas. “Essa iniciativa é muito importante, com as empresas dispostas a se comunicar com surdos. Temos uma língua própria e escrita diferenciada dos ouvintes. É um bom trabalho mostrar que eu sou surda, mas tenho capacidade de interação”, destacou.