Projeto Peregrinos de Nazaré amplia caminhos da devoção e fortalece potencial do turismo religioso
Pontos de apoio com alimentação, descanso e afeto fazem a diferença na jornada de fiéis do Pará, de outros estados e países
Placas indicam o caminho. Nas tendas, os peregrinos encontram alimentação, descanso e atendimento. Ao longo do percurso, mapas mostram a distância que ainda falta até o destino final: a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém. Entre os dias 5 e 9 de outubro, romeiros de diversos municípios paraenses e de outros estados do Brasil participam do “Peregrinos de Nazaré”, caminhada de fé realizada nas estradas do Pará.
A iniciativa é promovida pela Diretoria da Festa de Nazaré, pela Secretaria de Estado de Turismo (Setur) e demais parceiros, com o objetivo de ampliar a segurança e o acolhimento aos devotos durante o percurso.
Ao som de cânticos, palavras de incentivo e orações, os peregrinos saem de municípios como Castanhal, Maracanã, Magalhães Barata, Peixe-Boi, Capanema, Nova Timboteua, Igarapé-Açu, São Francisco do Pará, Ourém, Santa Maria do Pará e São Miguel do Guamá.
Cada caminhada carrega uma motivação particular agradecer por uma graça alcançada, celebrar conquistas, cumprir uma promessa ou buscar crescimento espiritual.
Em sua 10ª edição oficial, o projeto conta com 28 pontos de apoio, o maior número já registrado, distribuídos ao longo da BR-316, da Alça Viária (PA-483) e de rodovias da região do Salgado (Nordeste paraense), até a chegada a Belém. Os pontos estão localizados em Acará (3), Santa Maria do Pará (3), Apeú, distrito de Castanhal (1), Santa Izabel do Pará (7), Benevides (1), Marituba (2), Ananindeua (2), Belém (6), Santo Antônio do Tauá (1), Terra Alta (1) e Santa Bárbara do Pará (1).
Pela primeira vez, o apoio também chega à região do Salgado, com três pontos em expansão nos municípios de Santo Antônio do Tauá (PA-140), Terra Alta (PA-136) e Santa Bárbara do Pará (PA-391). A ampliação fortalece a cobertura e oferece mais estrutura aos romeiros que chegam a Belém por essas rotas.
Da devoção à construção da rota turística permanente
Além de contribuir para a organização da caminhada, a Setur trabalha na estruturação do projeto com o objetivo de qualificar o percurso e consolidá-lo como uma rota turística de referência em turismo religioso. A proposta é ampliar a experiência para além do período do Círio, a exemplo de destinos já reconhecidos internacionalmente pela tradição de suas peregrinações, como Aparecida (SP), Fátima (Portugal), Lourdes (França), Guadalupe (México) e o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha.
A diretora de Produtos Turísticos da Setur, Alessandra Pamplona, explica que o órgão já identificou na peregrinação potencial para se transformar em um produto turístico estruturado e permanente, capaz de atrair visitantes de outros municípios, estados e até de outros países. “Hoje, acompanhando parte dessa caminhada, eu perdi a conta de quantas vezes me emocionei. É muito bonito ver a fé de quem peregrina, mas também a dedicação de tanta gente que acolhe, cuida e trabalha para que essa caminhada aconteça. É uma construção feita a muitas, muitas mãos, com fé, solidariedade e pertencimento”, afirma.
Segundo a diretora, a experiência paraense pode seguir o exemplo de outras rotas já tradicionais. “Como acontece com tantas rotas de peregrinação consolidadas pelo mundo, podemos construir aqui uma rota permanente, sustentável e cada vez mais preparada para receber quem vem ao Pará movido pela fé, sem perder aquilo que é a sua essência”, complementa.
Turismo é política pública
Para Conceição Silva, técnica da Setur responsável pela coordenação do “Peregrinos”, acompanhar o movimento também significa compreender o turismo como política pública e instrumento de desenvolvimento dos territórios. “Nosso papel é ajudar a estruturar, organizar e fortalecer iniciativas que já nascem da própria sociedade, e que têm capacidade de gerar desenvolvimento e novas oportunidades para os territórios. O Círio é um dos grandes diferenciais turísticos do Pará, e o ‘Peregrinos de Nazaré’ mostra o potencial que temos de romper a sazonalidade, transformando a força da fé em uma experiência que possa ser vivenciada ao longo do ano”, avalia.
Fé que atravessa fronteiras
Integrando um grupo de 15 pessoas, Pedro Carvalho, natural de Belo Horizonte (MG), participa da caminhada pela primeira vez. “Tenho família aqui, e já participei do Círio outras vezes, mas na caminhada é a estreia. Já foram 14 quilômetros até agora, saindo de Castanhal. Está sendo uma experiência incrível. Estamos unindo a parte cristã, a parte da fé. É muito bonito. Estou caminhando para agradecer a Nossa Senhora todas as oportunidades que a gente tem”, conta o peregrino.
Por meio das novenas de Nossa Senhora de Nazaré apresentadas por uma amiga, Juliana Costa de Souza e Eduarda Maria de Souza, de Uruçuí, no Piauí, conheceram a devoção à padroeira do Pará. “Ela nos apresentou a essa tradição e nos tornamos devotas. E, esse ano, ela recebeu a graça de voltar pra cidade dela, que é Castanhal, e a gente está acompanhando ela nessa caminhada de fé. Estamos aqui para agradecer por tantas bênçãos que recebemos e uma promessa específica que vamos cumprir em breve”, relata Eduarda.
No ponto de apoio localizado em Apeú, em Castanhal, o coordenador Moacir de Castro observa que o número de participantes de outros estados e países vem crescendo ao longo dos anos. “Nós temos uma expectativa de que peregrinos de nove países devem passar por aqui, como Bélgica, Estados Unidos e França. E, a cada ano, essa peregrinação atrai mais romeiros, seja do exterior, do Brasil ou de outros municípios paraenses. Não temos números quantificados, devido à alta rotatividade dos pontos, mas só hoje passou um grupo com mais de 3 mil pessoas”, ressalta Moacir.
Do interior a Belém, promessas e tradições renovadas
A tradição da caminhada se fortalece especialmente entre grupos que saem do interior do Pará. Há 24 anos, José Renato Fonseca participa da peregrinação com um grupo de Igarapé-Açu, onde 50 pessoas integram o grupo. “Minha participação começou por motivos financeiros e, quando eu consegui superar as dificuldades, fiz a promessa de que, enquanto eu estiver bem de saúde, nós participaremos da caminhada do Círio, eu e meu grupo. O que percebo nesses anos é que o interesse de participar é cada vez maior. Antes, saíamos com apenas dois grupos da minha cidade; hoje, são 10 grupos”, informa José Renato.
Naldo Martins participa há 10 anos com um grupo de 35 pessoas da vila de Brasil Novo, no município de Magalhães Barata. “Essa caminhada representa um conjunto de muitas bênçãos alcançadas por todos os romeiros. Eles vêm nessa caminhada para cumprir esse propósito de agradecimento pelo que foi conquistado por cada um deles, que são várias bênçãos do dia a dia”, afirma.
Também oriundo de Igarapé-Açu, o romeiro Genival de Araújo Nascimento participa com um grupo de 75 peregrinos. Para ele, a caminhada é marcada por emoção e gratidão. “Nossa participação representa muita emoção, conquistas, realizações e muitas bênçãos vindas de Nossa Senhora de Nazaré. O nosso grupo participa há 22 anos desta caminhada. Só temos a agradecer a Deus, a Nossa Senhora de Nazaré e a todos os romeiros que fazem parte do nosso grupo”, reforça Genival.
Solidariedade cresce com a peregrinação
A expansão da peregrinação também é percebida nos pontos de apoio espalhados pelas rodovias. Em Santa Izabel do Pará, o tradicional ponto de apoio de dona Rita é coordenado há 14 anos pelas amigas Rita Barreto e Alba Ferreira. O espaço oferece alimentação, descanso, primeiros socorros e acolhimento aos fiéis.
A estrutura nasceu como forma de agradecimento por uma graça alcançada. Rita foi a única sobrevivente de um acidente de carro e, desde então, transformou gratidão em ação de acolhimento aos peregrinos.
Alba Ferreira conta que o movimento cresceu significativamente ao longo dos anos, e passou a receber pessoas de vários estados e de outros países. Para ela, acompanhar esse crescimento também é motivo de emoção e orgulho. “Estamos há 14 anos na caminhada. Houve um aumento significativo no número de peregrinos. Eles fizeram um projeto de levar para cinco estados a acolhida dos romeiros. Ano passado dobrou o número de peregrinos. Vimos pessoas do Rio de Janeiro, São Paulo, Portugal, vindas de dentro do nosso próprio estado e de outros estados e países. Do que conseguimos anotar, pois não conseguimos anotar tudo, 14.480 pessoas passaram. Aumentou significativamente, e aumenta cada vez mais”, relata.
Outro ponto tradicional está localizado em Castanhal – a mais de 70 quilômetros de Belém -, e é mantido há 18 anos por *Walter e sua família*. O espaço oferece descanso, alimentação e suporte aos peregrinos. A iniciativa também nasceu como forma de agradecimento pela saúde da esposa e da filha, Vitória.
Ao longo dos anos, Walter testemunhou o crescimento da peregrinação, reunindo um número cada vez maior de pessoas de outros estados e países, o que reforça também a importância da solidariedade ao longo do caminho. “Neste período, observamos que vem muito mais gente de outros países, outros estados, graças a Nossa Senhora e aos filhos de Nossa Senhora de Nazaré, que se unem para ajudar uns aos outros. Há gente do interior do Pará, do sul do Brasil, de outros países, que contam com a gente, e isso é muito importante. Porque, muitas vezes, mais importante do que dar uma laranja é dar uma força, um carinho, um abraço. Muitas vezes, eles vêm tão cansados, e um abraço é muito importante”, acrescenta.
O projeto envolve centenas de voluntários e a parceria de diversas instituições, entre as quais Arquidiocese de Belém, Arquidiocese de Castanhal, Setur, Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Rodoviária Estadual, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros Militar, Defesa Civil, Sesi (Serviço Social da Indústria) e Cruz Vermelha.
Texto: Sâmia Maffra – Ascom/Setur

