Hemopa se prepara para adotar novos critérios para doação de sangue no Pará
Nova regulamentação do Ministério da Saúde atualiza critérios de aptidão e inaptidão para doadores; mudanças incluem pessoas com histórico de câncer, procedimentos estéticos e doadores com 70 anos ou mais
A Fundação Centro de Hemoterapia e Hematologia do Pará (Hemopa) iniciou a preparação das equipes para a adoção dos novos critérios para doação de sangue estabelecidos pelo Ministério da Saúde. As mudanças estão previstas na Portaria GM/MS nº 11.685/2026, que atualiza o regulamento técnico dos procedimentos hemoterápicos no Brasil e modifica critérios de aptidão e inaptidão de candidatos à doação.
Publicada em julho, a nova regulamentação entra em vigor nacionalmente após o período de transição estabelecido pelo Ministério da Saúde. No Pará, o Hemopa trabalha com a previsão de capacitar, até o final de agosto, as equipes que atuam na hemorrede para aplicação dos novos critérios.
Entre as mudanças estão a redução de períodos de inaptidão temporária em determinadas situações e a atualização de critérios relacionados a procedimentos estéticos; transfusão de sangue; uso de medicamentos; histórico de hepatite; novos parceiros sexuais e idade do candidato à doação.
Uma das alterações permite ainda que pessoas com histórico de determinados tipos de câncer possam voltar a se candidatar à doação, desde que atendam aos requisitos estabelecidos na regulamentação e sejam consideradas aptas durante a triagem.
“Uma mudança importante envolve pessoas que tiveram câncer. Pela nova regulamentação, após cinco anos do término do tratamento, estando em remissão, sem doença ativa ou recidiva e clinicamente bem, a pessoa poderá se candidatar à doação. Cada caso, no entanto, será avaliado individualmente pelo profissional durante a triagem”, explica O enfermeiro e gerente da Triagem de Doadores do Hemopa, André Almeida.
A regulamentação mantém impedimentos específicos relacionados a determinados tipos de neoplasias. Por isso, o histórico de remissão de câncer não significa aptidão automática para doar sangue. A avaliação individual realizada pelo profissional responsável pela triagem continua sendo necessária.
Possibilidade de voltar a doar - Para Raíssa Maciel, estudante de Publicidade, a mudança trouxe a expectativa de retomar um hábito que começou ainda na juventude. Ela se tornou doadora aos 19 anos e procurava realizar doações regularmente, de forma espontânea.
“Comecei a doar aos 19 anos e tentava vir com certa regularidade. Era uma doação espontânea, não para alguém específico. Tenho uma tia que era renal crônica e, desde os 13 anos, pensava que, quando pudesse, gostaria de doar sangue e órgãos. Sempre enxerguei o quanto esse ato é importante para o próximo”, conta.
Raíssa concluiu o tratamento contra o câncer em 2016. Após a doença, recebeu a informação de que não poderia continuar doando sangue, condição prevista pelos critérios então adotados. “Fiquei triste quando soube que não poderia mais ser doadora. Pensei: ‘Poxa, além de ter tido a doença, isso ainda prejudicou o ato de doar’. Fiquei muito feliz com essa mudança e com a possibilidade de poder doar novamente, porque é algo que faço com prazer”, relata.
Com o tratamento concluído há dez anos, Raíssa pretende passar novamente pela triagem para verificar se atende aos novos critérios. Para ela, a possibilidade de retomar a doação tem também um significado pessoal. “Acho que voltar a doar sangue é um ponto que mostra como as coisas sempre voltam a se encaixar, mesmo que leve um tempo”, afirma.
O que muda na triagem - Segundo André Almeida, uma das principais características da nova regulamentação é a revisão dos períodos de inaptidão aplicados a diferentes situações avaliadas durante a triagem clínica.
Entre as alterações está o período relacionado a determinados procedimentos estéticos invasivos, como tatuagens, que poderá ser reduzido para sete dias quando atendidas as condições estabelecidas pela regulamentação. Para procedimentos endoscópicos, o período de inaptidão passa de seis para quatro meses.
A norma também passa a estabelecer critérios específicos para candidatos que utilizam profilaxia pré-exposição (PrEP) ou pós-exposição (PEP) ao HIV, situações que não estavam contempladas da mesma forma na regulamentação anterior.
Outra atualização envolve o uso de medicamentos agonistas do receptor de GLP-1. De acordo com o gerente da Triagem, a avaliação passa a considerar a condição clínica do candidato, incluindo a ausência de comprometimentos que possam interferir na segurança da doação.
Também foram atualizados critérios relacionados ao histórico de hepatite, ao início de relacionamento com novo parceiro sexual e ao recebimento de transfusão de sangue.
Outra mudança envolve pessoas com 70 anos ou mais. Segundo o gerente, candidatos nessa faixa etária que atendam às condições previstas na nova regulamentação, incluindo histórico recente de doações, poderão passar por avaliação médica para verificar a possibilidade de continuar doando.
“O impacto pode ser significativo porque alguns candidatos que antes eram considerados inaptos poderão voltar a se candidatar à doação, seja pela mudança relacionada à idade ou pela redução dos períodos de inaptidão em determinadas situações. Isso amplia a possibilidade de termos mais pessoas aptas a doar”, explica André Almeida.
Adequação da hemorrede - As mudanças decorrem da Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026, que altera a Portaria de Consolidação GM/MS nº 5/2017 e redefine o conjunto de regulamentos técnicos da área de sangue e de procedimentos hemoterápicos no âmbito do Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Derivados (Sinasan).
O Hemopa está revisando protocolos, fluxos e rotinas relacionados às mudanças e preparando as equipes que atuam nas unidades da hemorrede.
“A nossa previsão é de que, até o final de agosto, a gente consiga capacitar toda a hemorrede para aplicar os novos critérios. Estamos trabalhando para fazer essa adequação antes do prazo definitivo estabelecido pelo Ministério da Saúde”, informa André Almeida.
O presidente da Fundação Hemopa, Paulo Bezerra, explica que a atualização exige adequações nos procedimentos adotados pelo serviço. “A atualização permite adequar os procedimentos hemoterápicos às novas evidências científicas e aos critérios estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Para o Hemopa, isso significa revisar protocolos e incorporar as mudanças à rotina da hemorrede, mantendo os critérios de qualidade e segurança transfusional para doadores e pacientes”, afirma.
“O Hemopa está mobilizando as áreas técnicas para analisar as novas determinações e realizar as adequações necessárias nos protocolos, fluxos e rotinas de atendimento. O processo envolve orientação e capacitação das equipes, atualização dos procedimentos e disseminação das novas regras entre as unidades da hemorrede, para que a implantação ocorra de maneira coordenada”, acrescenta Paulo Bezerra.
Doações no Pará - Entre janeiro e julho de 2026, o Hemopa registrou 80.530 comparecimentos de candidatos à doação de sangue, que resultaram em 65.395 doações no período.
Mesmo com a atualização dos critérios, a aptidão para doar continuará sendo definida individualmente durante a triagem. O candidato deve informar corretamente seu histórico de saúde, tratamentos, medicamentos e demais situações avaliadas pelo profissional responsável, que verificará o atendimento aos requisitos estabelecidos para a doação de sangue.

