Pássaros Juninos invadem 'Arraial de Todos os Santos'
Ao longo dos quatro finais de semana da festividade, 18 grupos mostrarão ao público uma das manifestações culturais mais singulares e tradicionais do Estado
As apresentações dos Pássaros Juninos, Cordões de Pássaros e Cordões de Outros Bichos começam nesta sexta-feira (12), no Teatro Margarida Schivasappa, dentro da programação do Arraial de Todos os Santos 2026, promovido pela Fundação Cultural do Pará (FCP). Ao longo dos quatro finais de semana da festividade, 18 grupos levarão ao público uma das manifestações culturais mais singulares e tradicionais do Estado, unindo teatro, música, dança e elementos da identidade amazônica.
Enquanto o Palco Verequete, na praça do artista, recebe apresentações de diversos folguedos juninos, o Teatro Margarida Schivasappa se transforma em um espaço dedicado exclusivamente aos Pássaros Juninos e seus desdobramentos, preservando uma tradição centenária que existe apenas no Pará.
Considerado um dos mais importantes patrimônios da cultura popular paraense, o Pássaro Junino é uma manifestação que reúne elementos do teatro popular, da música e da narrativa dramática. Surgido ainda no período da Belle Époque, inspirou-se nas grandes companhias teatrais e óperas que chegavam da Europa para se apresentar no Teatro da Paz. A partir dessa influência, as comunidades paraenses criaram uma linguagem própria, transformando a manifestação em um teatro popular amazônico, produzido e mantido pelas próprias famílias e comunidades.
O Pássaro Junino é uma tradição transmitida entre gerações. Os mestres e guardiões da cultura costumam chamar a manifestação de “brincadeira”, termo que reforça seu caráter comunitário e familiar. Em muitos grupos, filhos, netos e bisnetos dão continuidade ao legado iniciado pelos seus antepassados.
As encenações apresentam temas que dialogam com a realidade amazônica e contemporânea, abordando questões ambientais, a presença indígena, os desafios das periferias e, mais recentemente, pautas relacionadas à inclusão social. A música ao vivo também é uma característica marcante, com repertórios autorais executados pelos próprios integrantes dos grupos.
Diferenças entre Pássaros Juninos, Cordões de Pássaros e Cordões de Outros Bichos
Embora façam parte da mesma tradição cultural, cada modalidade possui características próprias. O Pássaro Junino, por exemplo, é uma forma de teatro popular estruturado, com troca de cenários e figurinos, personagens, dramaturgia e recursos cênicos completos. Por essa razão, suas apresentações ocorrem em um teatro, utilizando palco, iluminação, coxias e toda a estrutura técnica necessária para a encenação.
Já os Cordões de Pássaros representam uma forma mais antiga e tradicional da brincadeira. Neles, os participantes permanecem organizados em formato de meia-lua diante do público, desenvolvendo a narrativa por meio de cantos, diálogos e pequenas encenações. A apresentação ocorre de forma mais simples, sem grandes mudanças de cenário ou figurino, preservando características das origens rurais da manifestação.
Com o passar do tempo, surgiram também os Cordões de Outros Bichos, que mantêm a mesma estrutura dos cordões tradicionais, mas substituem as aves por outros animais como personagens centrais. Entre os exemplos estão a Oncinha, a Borboleta Azul e o Bacu, este último inspirado na realidade ribeirinha de comunidades de Icoaraci. Cada grupo constrói suas histórias a partir da relação com o animal representado e com o contexto cultural de sua comunidade.
Tradição centenária
A história dos pássaros e cordões atravessa gerações. Existem registros de grupos fundados desde 1913. A longevidade dessas brincadeiras demonstra a força da cultura popular paraense e o compromisso de seus mestres, brincantes e comunidades com a preservação desse patrimônio imaterial.
Edital fortalece a cultura popular
As apresentações integram o Edital de Folguedos Juninos da Fundação Cultural do Pará, que completa dez anos de realização ininterrupta em 2026. Considerado um dos principais instrumentos de política pública voltados para a cultura popular no estado, o edital seleciona anualmente grupos para compor a programação oficial do Arraial de Todos os Santos.
Neste ano, 80 grupos foram contemplados, representando manifestações como boi-bumbá, boi de máscaras, grupos parafolclóricos, carimbó, toadas e outras expressões tradicionais. Além do Palco Verequete, as apresentações ocorrem em diferentes espaços culturais administrados pela FCP, como a Casa da Linguagem, Casa das Artes e o Núcleo de Oficinas Curro Velho, ampliando o acesso do público às manifestações juninas.
Texto: Matheus Maciel - Ascom/FCP

