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Jovem recupera esperança após primeira cirurgia de reimplante ureteral por endometriose no Hospital da Mulher

Procedimento inédito na unidade integrou equipes e utilizou técnica minimamente invasiva para tratar complicações graves da doença

Por Ascom Sespa (SESPA)
07/05/2026 16h45
Paciente Fernanda Barbosa: ″Esse hospital me trouxe esperança″.

“Eu tinha perdido o ânimo, não tinha expectativa”. O relato da jovem Fernanda Barbosa, de 29 anos, moradora de Canaã dos Carajás, Sudeste paraense, resume os anos de sofrimento provocados pela endometriose profunda. Desde a adolescência, ela enfrentava fortes dores, hemorragias com episódios frequentes de anemia, mas sem um diagnóstico preciso. Com o avanço silencioso da doença, o quadro evoluiu para complicações severas que comprometeram os rins e mudaram completamente sua rotina.

“Os rins pararam e comecei a fazer hemodiálise. Foi então que investigaram mais a fundo e descobriram a endometriose. Vim encaminhada para o Hospital da Mulher por causa da estrutura para o procedimento que eu precisava e eu vim para resolver”, relatou a paciente.

A jovem foi a primeira paciente do Hospital da Mulher do Pará (HMPA) a ser submetida a uma cirurgia de reimplante ureteral em decorrência de endometriose profunda. O procedimento representa mais um avanço da unidade em cirurgias ginecológicas de alta complexidade realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com o médico ginecologista e especialista em cirurgia de endometriose, Mário Simões, a doença já havia comprometido múltiplos órgãos da paciente quando ela chegou ao hospital. “A paciente passou por uma abordagem cirúrgica com as equipes da ginecologia que operam endometriose, cirurgia geral com a coloproctologia, urologia e nefrologia do hospital, porque a endometriose comprometeu os ureteres, que estavam com obstruções. Como o fluxo urinário não acontecia adequadamente, a urina refluía para os rins, causando comprometimento renal. Ela chegou com um quadro de insuficiência renal e precisou fazer sessões de hemodiálise”, explicou o especialista.

Cirurgia de reimplante de ureteres com quadro de endometriose

Segundo o médico, os dois ureteres, canais responsáveis por conduzir a urina dos rins até a bexiga, estavam obstruídos pelos focos da doença. Durante a cirurgia, foi necessária a retirada de parte dessas estruturas para o posterior reimplante.

“Precisamos soltar as aderências causadas pelos focos de endometriose e desobstruir os ureteres comprometidos pela doença para então reimplantá-los na bexiga, em uma técnica chamada reimplante ureteral, com o objetivo de normalizar novamente a função urinária”, detalhou.

Além da reconstrução dos ureteres, a paciente também passou por histerectomia e ooforectomia, retirada do útero e dos ovários, devido à agressividade da doença. Fernanda apresentava focos de endometriose nos ovários, útero, trompas, intestino e bexiga, comprometendo severamente sua qualidade de vida e a função renal.

Para a coordenadora do serviço de ginecologia e do ambulatório de endometriose do HMPA, Karina Resende, a paciente continuará o acompanhamento na unidade.  A probabilidade de recidiva é muito baixa, mas como ela é muito jovem, precisará de acompanhamento contínuo e uso de medicações. Ela fará reposição hormonal e a expectativa é que, com a cirurgia, haja recuperação da função renal”, acrescentou a médica.

O procedimento foi realizado por videolaparoscopia, técnica minimamente invasiva considerada padrão ouro no tratamento da endometriose profunda. A abordagem permite maior precisão cirúrgica, menor trauma ao organismo e recuperação mais rápida. A cirurgia envolveu uma equipe multidisciplinar formada por ginecologistas, urologista, cirurgiões gerais, coloproctologistas e nefrologistas.

Após anos convivendo com dores incapacitantes e incertezas sobre o próprio diagnóstico, Fernanda afirma que encontrou no hospital uma oportunidade de reconstruir sua vida. “Esse hospital trouxe esperança, porque eu já não tinha perspectiva. Quando soube que existia um lugar e profissionais que poderiam mudar minha realidade, percebi que não podia desistir do meu tratamento pelo SUS. Pela minha condição, eu jamais teria condições de pagar um tratamento especializado particular. Aqui eu encontrei acolhimento, organização e profissionais que cuidam de perto o meu caso. É o melhor tratamento para as mulheres do Pará”, afirmou.

Endometriose - Considerada uma doença inflamatória crônica, a endometriose é caracterizada pelo crescimento do tecido semelhante ao endométrio fora do útero, atingindo órgãos como ovários, trompas, intestino, bexiga e, em casos mais graves, estruturas do sistema urinário. Entre os principais sintomas estão dores intensas durante o período menstrual, dor pélvica crônica, alterações intestinais e urinárias, além de infertilidade.

Estima-se que a endometriose afete cerca de oito milhões de brasileiras e aproximadamente 200 milhões de mulheres em todo o mundo. A doença pode permanecer silenciosa em até 20% das mulheres, dificultando o diagnóstico precoce. A condição pode surgir desde os primeiros ciclos menstruais, geralmente entre 10 e 11 anos de idade, e persistir até a menopausa.

Equipe em sala de cirurgia

Dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS mostram que, entre 2015 e 2025, foram registradas 127.177 internações por endometriose no Brasil. A maior concentração ocorreu na região Sudeste, com 54.488 casos, seguida pelas regiões Nordeste (32.312), Sul (22.714), Centro-Oeste (9.237) e Norte (8.424).

O registro de números menores nas regiões Norte e Centro-Oeste podem não refletir necessariamente menor incidência da doença, mas sim a um diagnóstico tardio e possível subnotificação dos casos.

Texto: Ascom/HMPA