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Curso fortalece diagnóstico de morte encefálica e qualifica médicos do Estado

Capacitação promovida pela Central Estadual de Transplantes e equipes do hospital reforça segurança técnica, legal e humanização no atendimento a pacientes críticos

Por Giullianne Dias (SESPA)
19/03/2026 14h19

O Hospital Dr. Abelardo Santos (HRAS) realiza, nesta quinta (19), e sexta-feira (20), o Curso para Determinação de Morte Encefálica (CDME), uma capacitação considerada estratégica para a qualificação da assistência em unidades de saúde que atendem pacientes críticos. Voltado a médicos, o curso ocorre no próprio hospital, com atividades teóricas e práticas, incluindo simulação realística.

Promovido pela equipe de doção de Órgãos e Tecidos (e-DOT) do HRAS, com apoio da Central Estadual de Transplantes (CET), da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Sespa) e da Organização de Procura de Órgãos (OPO) Metropolitana, o treinamento reúne 24 profissionais e integra um esforço contínuo para ampliar o número de médicos aptos a realizar o diagnóstico de morte encefálica no Pará.

O médico neurologista do Hospital de Clínicas (HC) e da Fundação Santa Casa de Misericórdia (FSCMPA), Daniel Tomedi

Instrutor do curso, o médico neurologista do Hospital de Clínicas (HC) e da Fundação Santa Casa de Misericórdia (FSCMPA), Daniel Tomedi, destaca que o processo exige rigor técnico e atenção a cada etapa do protocolo. “O diagnóstico de morte encefálica é muito rigoroso e padronizado. Não existe um único erro, mas vários pontos que podem passar despercebidos, como temperatura, saturação de oxigênio, exames ou até o intervalo entre as avaliações. O curso vem justamente para reforçar esse passo a passo, tirar dúvidas e garantir segurança no diagnóstico, com o objetivo final de dar conforto à família e otimizar todo o processo”, explica.

Para a enfermeira da OPO e da Central Estadual de Transplantes, Larissa Sanches, a capacitação é fundamental

De acordo com a enfermeira da OPO e da Central Estadual de Transplantes, Larissa Sena Ferreira Sanches, a capacitação é essencial para garantir segurança técnica, respaldo legal e qualidade no cuidado aos pacientes. “A Resolução do Conselho Federal de Medicina nº 2.173/2017 trouxe critérios mais rigorosos e padronizados para o diagnóstico de morte encefálica, o que garante mais segurança para os profissionais e para as famílias. São exigidos dois exames clínicos, teste de apneia e exame complementar, assegurando a certeza do óbito”, destaca.

Ela explica que o diagnóstico de morte encefálica é, por definição, a constatação do óbito do paciente, mesmo que o coração ainda esteja batendo com auxílio de aparelhos. Por isso, a abertura do protocolo é obrigatória em casos que atendam aos critérios clínicos estabelecidos. “A determinação da morte encefálica é um ato de dignidade com o paciente e de transparência com a família. Não depende da intenção de doação de órgãos, mas do dever legal e ético de reconhecer o óbito”, afirma.

Além de garantir segurança jurídica, o processo também impacta diretamente na organização dos serviços de saúde. Com a confirmação do diagnóstico, é possível otimizar a gestão de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), um recurso considerado escasso, e iniciar o acolhimento adequado aos familiares.

Participante do curso, a médica pediatra Vivian Garcia da Cunha, que atua na UTI do hospital Abelardo Santos

Participante do curso, a médica pediatra Vivian Garcia da Cunha, que atua na UTI do hospital Abelardo Santos, reforça que a capacitação é fundamental para evitar diagnósticos precipitados e fortalecer a confiança das famílias. “Na prática, o diagnóstico de morte encefálica não pode ser feito de forma precipitada. É preciso seguir todo o protocolo para garantir segurança e transmitir confiança aos familiares. Isso evita erros, reduz o impacto emocional e ainda pode ajudar outras pessoas por meio da doação de órgãos”, ressalta.

Outro ponto destacado por Larissa Sanches é o desafio da comunicação com as famílias. “Explicar a morte encefálica, quando ainda há sinais vitais mantidos artificialmente, é um momento delicado. Por isso, a capacitação também prepara os profissionais para uma abordagem mais humanizada, reduzindo dúvidas e inseguranças”, ressalta.

A formação dos profissionais também contribui para a redução da negativa familiar em casos de doação de órgãos. Equipes treinadas conseguem conduzir o processo com mais clareza e sensibilidade, aumentando a confiança no diagnóstico e favorecendo a compreensão dos familiares.

Atualmente, mais de 350 médicos já estão capacitados para a determinação de morte encefálica no Pará, segundo dados da CET, que mantém o controle e a divulgação dos profissionais habilitados. A meta é ampliar esse número, considerando a dimensão territorial do estado e a necessidade de garantir assistência qualificada em todas as regiões.
Para o médico Tiago Lima, participante do curso, a capacitação também preenche lacunas da formação acadêmica e contribui diretamente para a ampliação das doações de órgãos. “Esse é um tema que ainda é pouco aprofundado durante a graduação. O curso ajuda a reconhecer melhor os casos de morte encefálica e contribui para o crescimento profissional, além de impactar na ampliação das doações, não só aqui, mas em outros serviços onde atuamos”, avalia.

O médico Tiago Lima foi um dos participantes do curso

A programação do curso inclui temas como conceitos de morte encefálica, fundamentos éticos e legais, metodologia do diagnóstico, manutenção do potencial doador e condutas após a confirmação da morte. As atividades práticas, com simulação realística, permitem aos participantes vivenciar situações do cotidiano hospitalar, reforçando o aprendizado.
A iniciativa também busca incentivar outros hospitais a estruturarem suas próprias comissões e equipes voltadas à doação de órgãos e à determinação de morte encefálica, fortalecendo a rede estadual de saúde e ampliando o acesso a transplantes.