PCT Guamá amplia estudos sobre biodiversidade amazônica

Com o Laboratório de Citogenética é possível avaliar desde medicamentos populares à composição molecular de novas espécie

27/01/2020 16h22 - Atualizada em 27/01/2020 17h31
Por Brenda Taketa (PCTGuamá)

O Ceabio, com vários laboratórios, oferta serviços para empresas e organizações interessadas na riqueza biológica da regiãoCriado em fevereiro de 2018, o primeiro Centro de Estudos da Biodiversidade (Ceabio) da Região Norte reúne diferentes laboratórios, ofertando serviços para empresas e organizações interessadas em informações e pesquisas qualificadas sobre a riqueza biológica da região. Instalado no Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, em Belém, o Ceabio é vinculado à Universidade Federal do Pará (UFPA). Primeiro parque tecnológico da Amazônia, o PCT Guamá é uma instituição criada pelo Governo do Pará, em parceria com a UFPA e a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra).

O Laboratório de Citogenética é um dos vinculados ao Centro. Nele são realizadas pesquisas que avaliam desde o efeito de substâncias de medicamentos populares sobre a saúde de organismos até o conhecimento molecular da biodiversidade, que possibilita a identificação de novas espécies.

“É muito importante, no contexto amazônico, estudarmos o princípio ativo das plantas, da biodiversidade, os seus usos. Diante de um cenário global em que as substâncias sintéticas também estão se esgotando, os interesses se voltam cada vez mais para a biodiversidade, para as moléculas que já vêm prontas na natureza”, explica Julio Pieczarka, que coordena o Ceabio e há mais de 35 anos realiza pesquisas na área de Genética Animal e Biologia Celular.O coordenador do Centro, Julio Pieczarka, há mais de 35 anos realiza pesquisas em Genética Animal e Biologia Celular

No Laboratório de Citogenética, ele atua em colaboração com as professoras Cleusa Nagamachi e Renata Noronha, com o apoio de uma rede de convênios com universidades e institutos científicos nacionais e internacionais.

Medicamentos naturais - Atualmente, o Laboratório de Citogenética é capaz de atender a vários tipos de demandas de empresas (industriais ou de serviços) que têm a biodiversidade e o conhecimento genético como diferenciais de produção.

A pesquisa sobre os efeitos das plantas diretamente nas culturas celulares permite a compreensão dos benefícios que elas podem ou não causar sobre o organismo humano, assim como as dosagens e as frequências adequadas ao uso.

De maneira geral, as culturas celulares envolvem um conjunto de técnicas que isolam células de animais ou vegetais em recipientes plásticos assépticos, assegurando que elas se mantenham, cresçam e proliferem em ambientes artificialmente controlados. O objetivo é estudar as propriedades, atividades, diferenciações e proliferações dessas células, ampliando o conhecimento sobre como funciona um organismo.

Esse tipo de conhecimento é fundamental em uma economia baseada em produtos oriundos da biodiversidade, sejam medicamentos, perfumes, cosméticos ou alimentos funcionais. As substâncias analisadas podem ser extraídas de frutos, como açaí e taperebá; de óleos, como os oriundos da andiroba e da copaíba, e de sementes, como a da abóbora.

Exatidão - Os estudos genéticos em espécies de peixes, aves, morcegos, roedores e marsupiais, grupos dos quais as mucuras, as catitas e os gambás fazem parte, também têm ajudado os especialistas do Laboratório de Citogenética na compreensão da biodiversidade amazônica, que vai muito além do que já está registrado.

A análise do cariótipo (total de cromossomos de uma espécie), por exemplo, ajuda os especialistas na identificação de cada uma dessas espécies com mais exatidão. Cientista também especializada na área de Genética Animal, Cleusa Nagamachi informa que, recentemente, essas pesquisas ajudaram a reconhecer uma espécie de roedor do gênero Cerradomys, anteriormente encontrada apenas em outro bioma, o Cerrado.

“Teoricamente, Cerradomys ocorre no Cerrado, mas a gente encontrou aqui na Amazônia. E isso pode ser efeito, por exemplo, do desmatamento, de mudanças no ambiente. De repente, os animais estão entrando, invadindo outros ecossistemas, porque o desmatamento está deslocando o habitat deles. Uma das explicações seria essa”, diz a pesquisadora.

Além de ajudar a entender as mudanças ecológicas decorrentes das pressões ambientais, as pesquisas citogenômicas favorecem a compreensão dos processos de formação de espécies ou de mutações capazes de fazê-las adoecer após a exposição a substâncias tóxicas, despejadas nos ecossistemas por empresas ou fábricas.

Espécies crípticas - Em alguns casos, a pesquisa mais aprofundada em laboratório ajuda a diferenciar o que não é percebido a olho nu. Ao trabalharem em parceria com taxonomistas (especialistas que analisam a forma das espécies de animais), os geneticistas ajudam a distinguir espécies aparentemente iguais. Esses são o caso das espécies crípticas, caracterizadas por serem fisicamente idênticas, mas, nos níveis molecular ou cromossômico, muito diferentes e não intercruzantes.

“Nós temos exemplo de roedores aparentemente da mesma espécie, mas com duas populações: uma com cariótipos com 24 (fêmea) ou 25 (macho) cromossomos, e outra população com 16 (fêmea) e 17 (macho). Morfologicamente, o taxonomista não consegue diferenciar, mas eles não são da mesma espécie. O cariótipo é muito diferente”, exemplifica Cleusa Nagamachi.

Outro exemplo dado pela cientista é o trabalho feito com um peixe elétrico do gênero Gymnotus. Por meio dessa pesquisa, descobriu-se que um exemplar coletado em Belém possuía 42 cromossomos, e outro, oriundo de Almeirim (no noroeste do Pará), apenas 40, configurando um caso de espécie críptica.

“Isso quer dizer, sim, que há na Amazônia muito mais espécies do que a gente olha e diz, porque a separação foi muito recente e não deu tempo de acumular diferenças”, assegura.

Estudos genéticos sobre os vertebrados aquáticos também possuem grande importância para a conservação da biodiversidade regional. Planos de manejo e ações de recuperação ambiental podem ser construídos com base em informações sobre o status genético de espécies ameaçadas, como peixe-boi e tartaruga da Amazônia, animais que sofrem grandes impactos da ação humana predatória sobre o meio ambiente.