Laboratório de Óleos da Amazônia transforma resíduos industriais em produtos inovadores

22/01/2020 13h44 - Atualizada em 22/01/2020 16h52
Por Brenda Taketa (PCTGuamá)

Residente do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, o Laboratório de Óleos da Amazônia (LOA) produz pesquisas que envolvem a criação de biocombustíveis e de catalisadores verdes ao complemento nutricional de rações animais com o que seriam inicialmente considerados resíduos industriais.

“Uma das vertentes mais estudadas, que está bem consolidada, é a transformação de óleos em biocombustível, em biodiesel. É uma aplicação básica e já bem difundida no nosso grupo”, conta Luís Adriano Santos, doutor em Química e vice-coordenador do LOA.

A preferência por óleos não consumíveis e pelo que, inicialmente, poderia ser considerado como rejeito industrial, torna a produção de biocombustíveis mais sustentável, tanto com relação à segurança alimentar das populações locais consumidoras dos produtos usados, quanto no que se refere ao combate à emissão de poluentes sobre o meio ambiente.

O biodiesel, que pode ser feito a partir do óleo in natura (ou bruto) e do refinado, é produzido no Brasil principalmente da soja. “Só que isso gera uma preocupação, quando se faz biodiesel de óleo in natura, porque esses óleos são utilizados para outros fins, como a alimentação. Então a gente tem investigado uma maneira de incentivar a produção de biodiesel a partir de outras fontes, como óleos que não são consumíveis, que não têm ou apresentam baixa aplicação na alimentação humana”, reforça o pesquisador.

Além disso, os biocombustíveis são uma alternativa mais sustentável em relação aos combustíveis fósseis, intensivos em dióxido de carbono, entre outros gases poluentes.

Entre as fontes pesquisadas no LOA para esse tipo de produção estão os óleos de espécies pouco consumidas na região, como os frutos do tucumã e do jupati, e principalmente os “subprodutos” que, em outras situações seriam considerados rejeitos e descartados durante o refino industrial de óleos como o de palma (dendê), de buriti, de andiroba e do maracujá, entre outros.

“O LOA é muito diversificado. Fazemos desde o acompanhamento e controle de qualidade da matéria-prima, aproveitamento dos derivados de oleaginosas, nos quais se incluem o óleo, a casca e a amêndoa. Isso tudo que a gente antes chamava resíduo, por considerar dessa forma, agora virou subproduto”, assegura Carlos Emmerson da Costa, que é também professor da UFPA com doutorado em Química e atual coordenador do LOA.  

Catalisadores - O LOA também prioriza a pesquisa de catalisadores “verdes”, social e ambientalmente mais sustentáveis que os tradicionalmente usados pelas indústrias. A catálise é a parte da química que se preocupa em aumentar a velocidade das reações para obter qualquer tipo de produto. Nessa área, os estudiosos se voltam para acelerar reações que, naturalmente, seriam muito lentas.

Nas pesquisas químicas e biotecnológicas, o processo de catálise serve para a obtenção dos mais diversos produtos: de polímeros que dão origem às nossas roupas às coisas que nos cercam, como plásticos, celulares, curativos, entre outros.

“Tudo envolve catálise: por exemplo, a obtenção da amônia, um componente fundamental para fertilizantes, que vai influenciar na agricultura, depende da utilização de catalisadores”, explica Adriano.

“É o caso também do carvão ativado produzido com o que seriam rejeitos de agroindústria, como cascas de frutas, caroços de frutos como o açaí, cupuaçu, castanha do pará, que também podem ser utilizados para a remoção de poluentes da água. Ou ainda a aplicação de rejeitos de mineração para atuar na produção de biocombustíveis”, exemplifica.

Como resultados da pesquisa sobre o aproveitamento dos rejeitos de caulim, por exemplo, os pesquisadores do LOA confirmaram que são catalisadores eficientes para a produção de biodiesel.

Com base na mesma fonte, outro resultado foi a produção de acetato de eugenila, uma substância que possui ação larvicida contra o Aedes Aegypti (mosquito transmissor do vírus da dengue).

“Com a inclusão de bactericidas, esses carvões produzidos a partir dos subprodutos (cascas, amêndoas, entre outros) podem ajudar na retirada de pequenas frações de ferro, bastante comuns na água encanada de Belém, por exemplo”, acrescenta Carlos Emmerson.

Ele também aponta que outra aplicação para as amêndoas já utilizadas na produção industrial é a adição à ração animal. Por seu caráter fibroso e por ainda conservar quantidades de óleos passíveis de aproveitamento, esses subprodutos servem em muitos casos como complemento nutricional para ruminantes, aves e peixes.