'Projetar o Futuro' leva cinema e debate a internas do Centro de Reeducação Feminino

O projeto-piloto, inédito no Brasil, é uma estratégia de ressocialização iniciada pela Seap e Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária

18/01/2020 12h19 - Atualizada em 18/01/2020 19h02
Por Dayane Baía (SECOM)

As internas aprovaram o projeto inédito, voltado à ressocializaçãoInternas do Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, participaram neste sábado (18) do “Projetar o Futuro”, iniciativa pioneira no País, que exibe obras cinematográficas a pessoas privadas de liberdade, e promove debate com especialistas. O projeto-piloto é desenvolvido em conjunto pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) e Força-Tarefa de Intervenção Penitenciária (FTIP), como estratégia de ressocialização.

O secretário Jarbas Vasconcelos (c) explicou os objetivos do projeto às internas“É um trabalho de diálogo e reflexão a partir do filme, que gera relatórios feitos pelas internas, os quais poderão se transformar em publicações. É uma dinâmica que privilegia o bom comportamento, funcionando como incentivo à disciplina. Pretendemos que seja aplicado também para remição da pena, já que é análogo à leitura, mas envolve a compreensão, a tradução reflexiva a partir do filme”, afirmou Jarbas Vasconcelos, secretário de Estado de Administração Penitenciária.

O projeto integra os procedimentos adotados pela Força-Tarefa de Intervenção em unidades penitenciáriasA FTIP vem desempenhando um papel importante na transformação do sistema prisional do Pará, auxiliando a gestão em várias áreas, cujas prioridades são melhorias nos processos de custódia e reinserção social, proporcionando a integralidade dentro e fora do cárcere. A proposta visa estimular a dignidade em um ambiente de privação da liberdade. “Pensamos em trazer algo inédito, que trouxesse uma regalia para as internas e incentivasse atividades laborais e educacionais fora da cela. Esse projeto tem a finalidade de despertar o senso crítico delas através de filmes e debates relacionados a problemas da nossa sociedade”, explicou Levison dos Anjos, coordenador do projeto da FTIP.

Critérios - Foram selecionadas 22 participantes, entre as 678 internas do CRF, com base nos seguintes critérios: penas mais longas e participação em outros projetos de ressocialização. Aspectos físicos e emocionais também foram levados em consideração, a partir da avaliação médica e psicossocial, que deve ser contínua para mensuração dos resultados. A proposta foi criada com a ampliação de um projeto já existente no Centro, envolvendo literatura e cinemateca, a partir de um modelo implantado em uma unidade de Porto Velho, capital de Rondônia.O coordenador Levison dos Anjos, da FTIP, disse que o projeto tem a finalidade de despertar o senso crítico entre as internas

Na sessão deste sábado foi exibido o filme “Estrelas Além do Tempo”, produzido em 2017 com base em fatos reais, contando a história de três mulheres negras que trabalhavam no programa espacial da Nasa (agência espacial norte-americana) nos anos 1970. O filme enfatiza o potencial feminino em uma sociedade conservadora. “O filme trata as questões do empoderamento feminino, do racismo e da emancipação humana através da educação. A libertação da mulher enquanto figura importante da sociedade. Esses foram os pontos principais apontados no debate, com a troca de conhecimentos a partir delas (detentas)”, explicou Natali Benassuly, pedagoga do CRF, responsável pela mediação do debate.Natali Benassuly, pedagoga do CRF, ressaltou a importância dos temas abordados no filme

“Achei muito bom para nossa ressocialização. Tira a gente daquele ambiente fechado, espairece a mente. O filme é muito interessante; a resistência de três mulheres que sofrem um certo racismo dentro da área de trabalho. Tem a ver, porque quando a gente sai as pessoas têm outro olhar, porque nos envolvemos na vida do crime. Eu acredito que basta a gente querer, se esforçar, deixar tudo para trás, que dá tudo certo”, disse uma das internas.