Educação de Jovens e Adultos: uma ferramenta de transformação

No Pará, só em 2019, foram quase 53 mil novos alunos matriculados na modalidade

07/12/2019 09h18 - Atualizada em 07/12/2019 18h32
Por Carol Menezes (SECOM)

Debora Katia Ferreira concluiu o Ensino Médio por meio do EJA e hoje aguarda o resultado do mestradoA Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil vem, gradativamente, sendo reconhecida como um direito para milhões de pessoas que não tiveram oportunidade de conclusão de sua escolaridade. No Pará, só em 2019, foram 52.817 novos alunos matriculados. Em um país onde há evasão escolar, de motivações inúmeras, mais do que um direito assegurado, a modalidade acaba sendo uma chance de realizar um sonho deixado para trás e uma potente ferramenta de superação.

Por ter começado a estudar somente aos dez anos de idade, Débora do Carmo recorreu ao supletivo – como era chamada a EJA até a redemocratização do Brasil e criação da Constituição Federal de 1988 – para concluir o Ensino Fundamental e chegar a tempo de cursar o Ensino Médio regular, já na década de 90. Após uma pausa por conta do casamento e dos dois filhos que vieram, sendo que um deles convive com o espectro autista, ela voltou a estudar e está na segunda graduação, dessa vez em Pedagogia, sétimo semestre. A condição do filho acabou definindo o mestrado voltado à Educação Especial, no qual ela já se inscreveu e aguarda o resultado.

Superação – “Quando entrei na escola, não quis mais parar. A educação foi uma necessidade que mudou completamente a minha vida, virei referência em casa, os livros estão espalhados em todos os cômodos, minha filha mais velha está prestes a se formar em Pedagogia", orgulha-se. Além dela, a própria mãe ingressou na EJA para concluir os estudos, bem como seus três irmãos mais novos.

Cedo, Ronaldo Nobre precisou trocar os estudos pelo trabalho e atualmente cursa o Ensino Fundamental na Escola Maroja NetoCabeleireiro e militante, Ronaldo dos Santos está cursando o 3° ano do Ensino Fundamental na Escola Maroja Neto, em Belém. Os estudos ele trocou pelo trabalho ainda aos nove anos de idade, e depois de adulto e envolvido em pautas LGBT e do movimento negro, sentiu necessidade de retomar as aulas. "Senti que não podia brigar por melhores condições sem o conhecimento formal, sinto a necessidade de entender melhor os contextos, a sociedade", justifica ele, adiantando que tão logo terminar o Fundamental e o Médio, parte para a faculdade ou de Pedagogia ou de História.

"Encontrei educadores maravilhosos, há muito apoio e ainda pode melhorar muito, porque infelizmente a evasão é muito grande. Minha turma começou com 32 pessoas, hoje tem oito. Acho que falta ainda um estímulo para manter essas pessoas estudando, reforçar que a educação é a base de tudo" - Ronaldo dos Santos, aluno.

Para ter acesso a esse tipo de educação não regular, é preciso no mínimo 18 anos, não ter concluído o Ensino Médio e/ou Fundamental, procurar uma escola que ofereça EJA e se matricular. Professora de jovens e adultos do Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos Prof. Luiz Octavio Pereira (Ceeja), Neilce Santos confirma que tratam-se de dois perfis completamente diferentes em relação à educação convencional, tanto do aluno quanto do educador.

Professorado EJA, Neilce SantosRealidade – A maioria dos que procuram o fazem em busca de inserção no mercado de trabalho, qualificação e profissionalização. Quase sempre já possuem algum emprego e querem ou melhorar de vida ou garantir a manutenção do cargo atual. "Eles acreditam que através da educação podem mudar suas realidades, e a maior parte segue para o Ensino Superior depois, e voltam contam as experiências", relata Neilce.

Um dado curioso é que não é incomum que casamentos e uniões terminem a partir do momento em que a mulher aumenta a própria autoestima através da busca pelo conhecimento. "O empoderamento assusta", lamenta a professora.

"A pessoa não viveu aquela fase escolar, de estudo, para a idade adequada, parou de estudar ou porque não teve apoio da família ou porque precisou trabalhar – o que corresponde a 80% dos casos. Ficou uma lacuna, a vida seguiu, mas agora é aquele sonho que ficou lá atrás que pode ser retomado", esmiúça a professora. "Aqui fazemos a pedagogia do afeto", resume Neilce.