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SAÚDE PÚBLICA

Hospital de Clínicas reúne especialistas para discutir cuidado com o sangue

Pioneiro na implantação do gerenciamento do sangue na região Norte, o HC promove jornada internacional e apresenta avanços da estratégia no SUS

Por Lucila Pereira (HC)
11/09/2026 17h36

Preservar o sangue de pacientes, evitar perdas desnecessárias durante o tratamento e utilizar transfusões somente quando forem realmente necessárias. Essa é a proposta do Patient Blood Management (PBM), ou gerenciamento do sangue do paciente, estratégia que busca tornar o cuidado mais seguro e individualizado.

O tema foi discutido durante a Jornada Internacional de Hemoterapia e Patient Blood Management, realizada nos dias 9 e 10 de setembro, pela Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV), em Belém. O evento reuniu cerca de 180 profissionais de saúde, pesquisadores, gestores e estudantes para compartilhar experiências e discutir novas formas de cuidar dos pacientes que precisam passar por procedimentos de maior complexidade.

A Jornada Internacional de Hemoterapia e Patient Blood Management reuniu cerca de 180 profissionais

Pioneiro na implantação da estratégia na região Norte, o Hospital de Clínicas também apresentou sua experiência durante a programação. O encontro contou ainda com a participação do Ministério da Saúde, que apresentou os avanços na construção da Política Nacional de Cuidado com o Sangue da Pessoa, que leva os princípios do gerenciamento do sangue do paciente para a realidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Diretor do Departamento de Atenção Especializada e Temática da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Arthur Mello explicou que a proposta brasileira utiliza conhecimentos já consolidados internacionalmente, mas considera as necessidades do SUS. “Nós utilizamos as referências internacionais que já são muito bem embasadas cientificamente para criar uma política que dialogue com a realidade do SUS, que se chama Política Nacional de Cuidado com o Sangue da Pessoa, o nosso PBM Brasil”, contou.

Pioneirismo no Norte - No Hospital de Clínicas, o gerenciamento do sangue do paciente faz parte da rotina assistencial desde 2023. A estratégia busca identificar e tratar problemas que possam aumentar o risco durante um procedimento, como a anemia, além de reduzir a perda de sangue e avaliar, de forma individualizada, quando uma transfusão é realmente necessária.

A experiência do HC esteve entre os destaques da jornada, que contou com a participação do professor doutor Axel Hofmann, da University of Western Australia, uma das principais referências mundiais no gerenciamento do sangue do paciente. Nascido na Alemanha, Axel Hofmann é professor da Escola de Medicina da University of Western Australia e preside o Comitê Diretor Externo da Organização Mundial da Saúde (OMS) responsável pelas diretrizes globais sobre o tema. Com atuação internacional, já apresentou seu trabalho em mais de 80 países e participou de cerca de 850 eventos e fóruns relacionados à área.

Durante a jornada em Belém, o especialista ministrou três palestras, contribuindo para a troca de experiências entre profissionais brasileiros e internacionais.

Cuidado antes da cirurgia - Referência estadual em cirurgia cardíaca, o Hospital de Clínicas Gaspar Vianna aplica os princípios do gerenciamento do sangue especialmente no atendimento a pacientes que precisam passar por procedimentos mais complexos.

O cuidado pode começar antes mesmo da cirurgia, com a identificação de anemia e de outras condições que possam aumentar o risco de sangramento. A equipe também avalia os medicamentos utilizados pelo paciente e planeja medidas para evitar perdas desnecessárias durante o procedimento.

O objetivo  é preparar o paciente da melhor maneira possível antes da cirurgia, em vez de esperar uma perda de sangue para agir.

Coordenadora de Hemoterapia do HC e responsável pela implantação da estratégia na instituição, a médica Iê Bentes Fernandez destacou a importância dessa mudança na forma de cuidar. “O grande legado é a mudança cultural, o impacto da robustez de tantos experts falando ao mesmo tempo e trazendo evidências muito boas, de todo o mundo, sobre a aplicação do PBM e seus amplos benefícios clínicos, econômicos e éticos, não só para o paciente, mas também para o hospital, o hemocentro, os sistemas de saúde e a sociedade em geral”, ressaltou Iê Bentes Fernandez  que também presidiu o evento.

“É importante reforçar que o PBM, como fiz questão de falar, e o doutor Axel também repetiu, não é 'antitransfusão'. O PBM é pró-indicações transfusionais corretas. É avaliar o paciente como um todo, considerando os exames, a história clínica e a tolerância que o organismo tem à anemia. Precisamos entender que o organismo tolera muito mais do que pensamos, e que não podemos ter medo da anemia, mas, sim, criar mecanismos para ajudar esse organismo a tolerá-la”, complementou a médica.

Conhecimento - A jornada reuniu profissionais de diferentes áreas e instituições de saúde, ampliando a troca de experiências sobre como aplicar o gerenciamento do sangue em diversos perfis de pacientes. Entre os participantes estava Márcia Basílio, farmacêutica da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, referência materno-infantil no Estado, que buscou conhecer experiências relacionadas ao atendimento de bebês e recém-nascidos.

Para ela, o encontro foi uma oportunidade de conhecer estratégias que podem contribuir para um cuidado ainda mais seguro com quem exige atenção especial. “O que eu vim buscar foram mais estratégias que outros colaboradores, médicos e enfermeiros possam estar apresentando, porque nós sabemos que o PBM é uma estratégia de manejo do sangue do paciente e, se tratando de crianças e neonatologia, que é um público muito específico, é muito difícil a gente mudar paradigmas. Nessa jornada, nós encontramos palestras que foram extremamente importantes no âmbito da hemoterapia voltada para crianças e também para a neonatologia, fomentando o que nós, na Santa Casa, já trabalhamos, que é não somente o uso racional do sangue, mas principalmente a transfusão segura, quando necessária”, ressaltou.

A programação também abordou segurança nas transfusões, prevenção de perdas de sangue, atendimento a pacientes com sangramentos graves e formas de reduzir riscos durante procedimentos.

Participantes do evento, ao lado do professor Axel Hofmann e demais palestrantes

Experiências - A importância dessa abordagem foi enfatizada na história de Francisca de Araújo, 73 anos, que estava sendo preparada no Hospital de Clínicas para uma cirurgia cardíaca de grande porte. Francisca não aceita transfusão de sangue por convicção religiosa. Ao chegar ao hospital, ela apresentava uma anemia grave, aumentando a dificuldade para a realização do procedimento.

Diante da situação, a equipe do HC iniciou um tratamento para ajudar o organismo da paciente a produzir mais sangue. Foram utilizados medicamentos e reposição de nutrientes necessários para essa produção, com acompanhamento da equipe multiprofissional.

Com o tratamento, Francisca apresentou melhora progressiva e conseguiu alcançar condições para a realização dos exames necessários antes da cirurgia. O cateterismo cardíaco identificou alterações nas artérias do coração e confirmou a necessidade do procedimento cirúrgico.

A filha da paciente, Iusa Maria Ribeiro, dona de casa, acompanhou todo o atendimento. Moradora de Paragominas (município do Sudeste do Pará), ela contou que a forma como a equipe respeitou a decisão da mãe foi importante para a família. “Eu e minha mãe tivemos uma experiência maravilhosa aqui no hospital. Desde quando chegamos, fomos muito bem acolhidas e respeitadas, e somos muito gratas por tudo que fizeram por nós. Uma coisa que me marcou muito foi que ninguém nos pressionou pela nossa decisão de não aceitar tratamento com sangue. Eles respeitaram nossa decisão o tempo todo, e isso foi muito importante para a gente”, afirmou Iusa Maria.

A experiência mostra, na prática, que o gerenciamento do sangue não significa deixar de utilizar transfusões quando é preciso. Significa avaliar cada paciente, preparar o organismo antes de procedimentos de maior risco, evitar perdas e respeitar as necessidades e decisões de cada pessoa.