Safra da castanha-do-pará inicia na Floresta Estadual do Trombetas e impulsiona a bioeconomia no oeste paraense
Mais de 600 extrativistas estão autorizados a atuar legalmente na unidade de conservação, garantindo a continuidade de uma prática tradicional que sustenta famílias, fortalece as comunidades locais e mantém a floresta em pé
A Floresta Estadual (Flota) Trombetas, localizada entre os municípios de Óbidos e Oriximiná, no oeste paraense, deu início a mais um ciclo produtivo com a abertura oficial da safra da castanha-do-pará. A cerimônia que marcou a liberação dos portões aos extrativistas ocorreu no último sábado (7), na base do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Pará (Ideflor-Bio), no Jamaracaru, reunindo centenas de trabalhadores que dependem da atividade para geração de renda e manutenção de seus modos de vida.
O evento contou com a presença da assessora de Gestão do Ideflor-Bio, Lena Pinto, do diretor de Gestão e Monitoramento de Unidade de Conservação, Ellivelton Carvalho, e do gerente da Região Administrativa da Calha Norte II, Ronaldson Farias. A abertura da safra simboliza o início das atividades extrativistas em uma das principais unidades de conservação de uso sustentável do estado, onde a exploração dos recursos naturais ocorre de forma planejada e ambientalmente responsável.
Mais de 600 extrativistas cadastrados no Ideflor-Bio estão autorizados a acessar a floresta para a coleta da castanha-do-pará, garantindo a legalidade da atividade e a continuidade de uma prática tradicional que fortalece as comunidades locais. O extrativismo sustentável realizado na Flota Trombetas é reconhecido como um dos pilares da bioeconomia no Pará, ao conciliar conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.
Bioeconomia - Durante a solenidade, a assessora de Gestão do Instituto destacou a importância do modelo adotado na unidade. “São mais de 600 extrativistas trabalhando de forma legal, gerando renda, fortalecendo comunidades e protegendo a Amazônia. Isso é bioeconomia na prática”, afirmou Lena Pinto, ressaltando que a expectativa é de que mais de R$ 2 milhões sejam arrecadados com a coleta da castanha nesta safra.
A atividade extrativista é permitida na Flota Trombetas por se tratar de uma unidade de conservação de uso sustentável, onde o manejo de produtos da biodiversidade ocorre mediante regras claras e acompanhamento técnico. Segundo Lena Pinto, a abertura da safra representa uma oportunidade estratégica para o Pará. “Essa é uma oportunidade ímpar para a geração de renda e o fortalecimento da bioeconomia no estado, ao mesmo tempo em que reforça a necessidade de um trabalho responsável, que preserve o meio ambiente e respeite as comunidades tradicionais”, destacou.
Oportunidade - Para os extrativistas, a abertura da safra representa mais do que o início do trabalho: é um marco simbólico e econômico. A extrativista Raquel da Silva Sampaio destacou a importância do momento. “O coração está a mil. Como costumamos dizer, o nosso ano novo começa hoje, com essa abertura, porque a partir de agora a gente vai começar a ter renda na nossa mesa. Somos muito gratos à parceria com o Ideflor-Bio, que nos últimos anos tem sido maravilhosa”, afirmou.
A presidente da Associação Mista Agrícola Extrativista dos Moradores da Comunidade Jaramacaru e Região (Acaje), Cidiane Sampaio, afirmou que os extrativistas estão preparados e otimistas para mais um ciclo de produção sustentável.
Com décadas de atuação na floresta, o extrativista Cornélio Ferreira de Oliveira também ressaltou o significado da cerimônia. “Estou aqui desde 1984 fazendo esse trabalho. Esse momento da abertura dos portões é sempre muito esperado. Estamos felizes com essa parceria com o Ideflor-Bio, porque agora as coisas seguem mais organizadas”, disse, ao destacar os avanços na gestão da atividade extrativista.
Passo a passo - A coleta da castanha-do-pará ocorre após a queda dos frutos da castanheira (Bertholletia excelsa), conhecidos como ouriços, fenômeno que se concentra entre os meses de dezembro e janeiro. O processo envolve a coleta dos ouriços no interior da floresta, a quebra manual, a retirada das amêndoas, a secagem e o ensacamento, etapas fundamentais para garantir a qualidade do produto destinado à comercialização.
De acordo com o gerente da Região Administrativa da Calha Norte II, Ronaldson Farias, a expectativa para este ano é positiva. A previsão é de que cerca de quatro mil sacos de castanha sejam extraídos da unidade, com planejamento baseado na atualização do cadastro dos extrativistas e no apoio da Polícia Ambiental para o monitoramento da entrada na floresta, assegurando um manejo seguro e eficiente.
Parceria - O trabalho conjunto entre o Ideflor-Bio, a 1ª Companhia Independente de Polícia Ambiental (CIPAmb), associações comunitárias, como a Acaje, e as prefeituras de Óbidos e Oriximiná tem sido fundamental para assegurar que a atividade ocorra de forma ordenada. O controle realizado na Base do Jamaracaru contribui para a conservação da floresta e para a transparência do processo extrativista.
O diretor de Gestão e Monitoramento de Unidades de Conservação, Ellivelton Carvalho, ressalta que, além do extrativismo, a Flota Trombetas também exerce um papel estratégico na pesquisa científica, ao abrigar estudos voltados à biodiversidade amazônica e às cadeias produtivas sustentáveis.
“A preservação da área permite avanços no conhecimento científico e gera benefícios diretos às populações locais, que dependem dos recursos naturais para sua subsistência. O extrativismo sustentável da castanha-do-pará na Flota Trombetas se consolida, assim, como exemplo de desenvolvimento responsável, capaz de gerar renda e proteger a Amazônia para as atuais e futuras gerações”, conclui o diretor.
