Jovens indígenas do Xingu levam memória e tecnologia ao torneio estadual de robótica em Belém
Com apoio da Sepi, estudantes da Escola Indígena Francisca Oliveira Lemos Juruna participam da First Lego League com projetos que unem inovação e saberes ancestrais
Uma delegação da Aldeia Boa Vista, do município de Vitória do Xingu, no Sudoeste do Estado, participa, nesta quinta (22) e sexta-feira (23), do Torneio First Lego League (FLL) – Unearthed, realizado no Sesi Ananindeua, Região Metropolitana de Belém. Ao todo, 11 jovens com idade entre 11 e 15 anos, alunos da Escola Municipal Indígena Francisca Oliveira Lemos Juruna, representam o Pará na etapa regional da competição. O evento reúne equipes de todo o estado e do País para experiências em ciência, robótica e inovação, com foco, neste ano, em arqueologia e ciências da Terra.
A participação dos estudantes conta com o apoio da Secretaria de Estado dos Povos Indígenas (Sepi), que reconhece a importância de iniciativas que fortalecem a educação indígena ao integrar tecnologia, identidade cultural e valorização da memória dos povos originários. A presença das equipes no torneio representa não apenas um avanço no acesso às tecnologias educacionais, mas também um espaço de protagonismo indígena em ambientes historicamente pouco ocupados por esses jovens.
Para a secretária de Estado dos Povos Indígenas, Puyr Tembé, a iniciativa reforça a importância de políticas públicas voltadas à educação indígena com respeito à diversidade cultural. “Apoiar esses jovens é investir no futuro dos povos indígenas, garantindo que eles tenham acesso à tecnologia sem abrir mão da própria identidade. Esses projetos mostram que tradição e inovação caminham juntas”, declarou.
Tecnologia como ferramenta de preservação cultural
A escola indígena participa do torneio com duas equipes, Jurunabots e Yudjatech, que integram um projeto educacional já desenvolvido na unidade e com histórico de participação em outras competições de robótica, inclusive em etapas de alcance nacional, como eventos realizados em Brasília (DF). As equipes apresentaram projetos conectados à realidade do povo Juruna e alinhados ao tema Unearthed, que propõe aos participantes investigar o passado para compreender o presente e refletir sobre o futuro.
A equipe Jurunabots apresenta o projeto Museu Vivo Itinerante do Xingu, uma proposta que busca preservar a memória do povo Juruna sem retirar artefatos do território. A iniciativa consiste em uma maleta educativa com réplicas de objetos, registros culturais e recursos de realidade aumentada, além de conteúdos na língua Juruna. O objetivo é valorizar a oralidade, a história viva e a identidade cultural, respeitando o vínculo entre os objetos e o território de origem.
Já a equipe Yudjatech desenvolveu o projeto Iwíre Seha Yudjá: Guardiões das Sementes Ancestrais, que aborda a arqueobotânica a partir do olhar indígena. A proposta reúne sementes tradicionais catalogadas em um acervo digital acessado por QR Code, integrado a uma maleta educativa. O projeto destaca o papel das sementes como guardiãs de memória, história e modos de vida, aproximando ciência, escola e comunidade.
Protagonismo juvenil e educação transformadora
A participação no torneio também representa um processo educativo contínuo dentro da comunidade. Os estudantes passaram por etapas de pesquisa, entrevistas com arqueólogos, historiadores e especialistas, além de diálogos com os mais velhos da aldeia. O trabalho coletivo envolveu professores, lideranças e famílias, fortalecendo o vínculo entre escola e território.
O cacique Fernando Juruna destaca que o projeto nasceu do diálogo e do respeito à cultura. “Quando aceitaram usar uma pintura corporal nossa para a equipe, a condição foi que o projeto chegasse a toda a comunidade. Hoje vemos nossos jovens mostrando que o povo Juruna também faz parte do mundo da tecnologia, sem deixar de ser indígena”, afirma.
Entre os estudantes, a experiência é vista como uma oportunidade de aprendizado e transformação. A aluna Uandria Juruna, de 14 anos, relata que o maior desafio foi a programação do robô, mas que o processo trouxe um novo olhar sobre a própria cultura. “A parte que eu mais gostei foi aprender mais sobre o nosso povo, as histórias e os significados. Isso mudou a forma como vejo a escola e a tecnologia”, conta.
Para Richard Eduardo, também de 14 anos, o contato com temas como arqueologia e realidade aumentada abriu novas perspectivas. “Aprendi que a tecnologia pode ajudar a proteger a cultura e evitar que ela se perca. Quero continuar na robótica, porque ela abre muitos caminhos”, diz.
Já Fábio Juruna, ressalta o esforço coletivo para superar dificuldades ao longo do projeto. “Foi desafiador, mas conseguimos levar nossa cultura junto com a tecnologia e mostrar quem somos”, afirma.
A estudante Érica Miranda, de 13 anos, destaca a dimensão humana da experiência. “Foi emocionante e difícil ao mesmo tempo, mas fiz amigos e aprendi muito. É muito bom ver uma comunidade indígena caminhando junto com a tecnologia”, relata.
A First Lego League (FLL) – Unearthed integra uma série de etapas. As equipes com melhor desempenho na fase regional avançam para o torneio nacional, em São Paulo, e podem representar o Brasil na final internacional, prevista para abril de 2026, em Houston, nos Estados Unidos. Para os jovens Juruna, a competição já representa uma conquista: ocupar espaços de inovação levando consigo a memória, a cultura e o futuro de seu povo.
