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Pesquisadores descobrem potencial farmacêutico e industrial inédito no Parque Estadual do Utinga

Segundo os pesquisadores do PCT Guamá, a partir dos micro-organismos é possível desenvolver remédio, enzimas industriais e ativos para cosméticos

Por Ascom (Governo do Pará)
27/02/2025 08h00

Pesquisadores do Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá identificaram um potencial inédito no solo do Parque Estadual do Utinga, em Belém – uma das maiores unidades de conservação ambiental em áreas urbanas do Brasil. Com 13,93 km², o parque é um dos principais destinos de lazer e turismo na capital paraense.

Os microrganismos encontrados demonstram grande potencial para o desenvolvimento de produtos biotecnológicos. Entre as aplicações estão antimicrobianos, que combatem bactérias e fungos; enzimas industriais, utilizadas em setores como alimentos, detergentes e biocombustíveis; e ativos cosméticos, que promovem hidratação, rejuvenescimento e proteção da pele.

Em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), de São Paulo, o Laboratório de Engenharia Biológica (EngBio) da Universidade Federal do Pará (UFPA), residente no PCT Guamá, mapeou moléculas produzidas por bactérias do Parque do Utinga. Os primeiros resultados foram publicados na revista Microbiology Spectrum em dezembro de 2024.

“A principal aplicação para a sociedade está no desenvolvimento de novos fármacos, como antibióticos, antifúngicos, antitumorais e anti-inflamatórios. Também há potencial para uso na agricultura, como promotores de crescimento vegetal, e na indústria, com enzimas biológicas”, destaca Ana Carolina Miranda, doutora pesquisadora do EngBio e coautora do artigo.

O papel do PCT Guamá no avanço da ciência

O PCT Guamá oferece suporte essencial para pesquisas como a do EngBio. “O parque proporciona infraestrutura, aproximação com o mercado e transferência de tecnologia. Os resultados do EngBio reforçam o compromisso do PCT Guamá e de seus residentes com a inovação sustentável na Amazônia”, afirma o diretor-presidente da Fundação Guamá, responsável pela gestão do complexo.

Uma descoberta inovadora

O estudo começou com a coleta de amostras de solo no Parque do Utinga. Após isolamento em laboratório, três cepas bacterianas – Streptomyces, Rhodococcus e Brevibacillus – foram selecionadas pelo potencial de produzir compostos bioativos.

Os cientistas sequenciaram o DNA dessas bactérias e identificaram 64 clusters de genes biossintéticos, responsáveis pela produção de moléculas bioativas. Mais da metade desses genes estavam ligados a substâncias inéditas, com potencial para novos antibióticos e tratamentos.

Para analisar suas capacidades, as bactérias foram cultivadas em diferentes condições laboratoriais, estimulando a produção de compostos variados. As substâncias foram extraídas e analisadas por espectrometria de massa, revelando uma ampla diversidade química. Algumas moléculas, como antimicina e deferoxamina – conhecidas por propriedades antibióticas e antitumorais – já são utilizadas na medicina, enquanto muitas outras são inéditas, destacando o potencial inexplorado da biodiversidade amazônica.

Preservação como chave para descobertas

A pesquisa evidencia o imenso potencial da Amazônia para o desenvolvimento de novos tratamentos, reforçando a necessidade de preservação do bioma.

“Estudos indicam que mais de 90% das espécies microbianas ainda são desconhecidas. As tecnologias laboratoriais nos permitem explorar essa biodiversidade química para criar novos produtos. Quanto mais preservação ambiental, maior a diversidade microbiana e o potencial para inovação”, explica Rafael Baraúna, pesquisador doutor do EngBio e coautor do estudo.

A exploração predatória da Amazônia ameaça a descoberta e aplicação desses microrganismos. Em 2024, o Governo do Pará embargou mais de 37 mil hectares envolvidos em atividades ilegais, como desmatamento e garimpo. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), residente no PCT Guamá, essas ações reduziram a degradação ambiental em 28,4% nos últimos três anos, como parte do Plano Estadual Amazônia Agora (PEAA), que alia fiscalização rigorosa a incentivos sustentáveis.

Os próximos passos da pesquisa incluem a expansão da coleta de amostras para outras áreas da Amazônia Oriental, ampliando o catálogo de substâncias bioativas com aplicações médicas e industriais.

PCT Guamá: referência em inovação

O PCT Guamá, iniciativa do Governo do Pará por meio da Sectet, tem parceria com a UFPA e a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra) e é gerenciado pela Fundação Guamá. Primeiro parque tecnológico da região Norte do Brasil, ele fomenta pesquisa aplicada e empreendedorismo sustentável para melhorar a qualidade de vida da população. Localizado às margens do Rio Guamá, o complexo ocupa 72 hectares, incluindo áreas de proteção ambiental.

Atualmente, o PCT Guamá abriga mais de 30 empresas residentes, 40 associadas e 12 laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. Conta ainda com instituições como o Inpe, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Escola Técnica Eetepa Dr. Celso Malcher. Também atua como referência para o Centro de Inovação Aces Tapajós (Ciat), em Santarém.

O parque integra redes nacionais e internacionais de inovação, como a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e a International Association of Science Parks and Areas of Innovation (Iasp), consolidando-se como um dos principais polos de tecnologia e ciência do país.


Texto: Ayla Ferreira com supervisão de Sérgio Moraes