Indígena faz residência na Santa Casa e será a primeira médica dos Tembé em Capitão Poço

Aos 25 anos de idade, Ana Paula Tembé se orgulha de reunir saberes práticos e conhecimento científico

19/04/2021 14h50 - Atualizada em 19/04/2021 18h26

Nesta segunda-feira (19), data em que se comemora os povos indígenas, a rotina da médica indígena Ana Paula Tembé, 25, será entre os leitos da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará (FSCMP), maior maternidade do Norte do país e centro de retaguarda do Governo do Estado do Pará no combate à pandemia do coronavírus, onde ela aprimora sua formação de médica, a primeira em sua Comunidade indígena, em Capitão-Poço, no nordeste do estado.Ana Paula Tembé aprimora seus conhecimentos como residente de Ginecologia e Obstetrícia da UFPA na Fundação Santa Casa

Desde o início deste ano, Ana Paula Tembé, que é nascida na aldeia Tapi’ir Uçu, em Capitão-Poço, é uma das médicas residentes de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal do Pará (Ufpa), em convênio com a Fundação Santa Casa, que é também um Hospital-Escola. Na prática, Ana Paula é mais uma profissional de Saúde na linha-de-frente contra a Covid-19, no Pará.

Enfrentar os problemas alheios de saúde e ajudar na cura das pessoas são experiências conhecidas por Ana Paula Tembé, pois sua avó, Fátima, era parteira e curandeira consagrada, agora, aposentou-se, e o avô materno, Antônio, fez tratamento de saúde na Santa Casa, por problemas crônicos no fígado.

Os avós sempre foram pessoas fundamentais na trajetória da jovem. O incentivo para seguir no ramo da Saúde, por exemplo, foi reforçado pelo outro avô, o cacique da aldeia Ita Putyr, Pedro Teófilo, que segue na ativa.

“Eu juntei muitas inspirações e muitas batalhas para estar aqui, hoje, dentro da Santa Casa, sendo a primeira médica da minha Comunidade e, ainda, me formando em Obstetrícia, uma atividade abençoada na nossa cultura, na herança afetiva que carrego e represento”, diz.

Para Ana Paula Tembé, nascida na aldeia Tapi’ir Uçu, em Capitão Poço, o Dia do Indígena é uma data para marcar resistênciaIngressante no vestibular por meio de políticas afirmativas exclusivas para indígenas, ela pretende voltar à Comunidade assim que concluir a Residência, em 2023.

Ancestralidade

Para Ana Paula Tembé, o Dia do Indígena, mais do que uma data comemorativa, é dia de resistência. “Precisamos superar o aspecto folclórico, preconceituoso, que por muito tempo permeou a ideia de indígena. Não somos reféns de uma cultura estática. Temos o direito de transitar além da delimitação das nossas terras, temos o direito de estudar e de nos transformar em sentidos positivos, sem que isso represente anulação ou descaracterização”, defende ela.

Na cultura Tembé, recordou Ana Paula, o matriarcado exerce papel de liderança dentro dos grupos e das aldeias, sobretudo pelo aspecto organizacional no ambiente doméstico e pela participação na pajelança, por isso, a importância dos ritos de passagem e de dar à luz. A chamada Festa da Menina-Moça é anual e uma das mais relevantes, porque marca justamente a apresentação das mulheres adultas à sociedade tribal.

A jovem residente de medicina vê a associação do conhecimento tradicional com a ciência formal como uma vantagem, não um fator limitante. "Na visão dos nossos processos de acolhimento e cura, reconhecemos que não podemos tudo, que precisamos da medicina, do mesmo jeito que a medicina reconhece que não consegue tudo. São saberes que se completam”, opinou Ana Paula Tembé.

Atendimento aos povos indígenas na Santa Casa

A Fundação Santa Casa é um polo permanente de atendimento para os povos indígenas de todo o Pará, em parceria com a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Em 2020, por exemplo, mesmo com toda a complexidade exigida pelo contexto da pandemia, a área ambulatorial do Hospital atendeu 150 indígenas, de vários municípios e das mais diversas etnias.

Por Aline Miranda*

Por Governo do Pará (SECOM)