PCT Guamá fomenta startup que produz materiais de construção reciclando o plástico

A fábrica piloto do projeto inovador está no Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, mantido pelo Governo do Pará, em Belém

25/01/2021 11h45 - Atualizada em 25/01/2021 13h28

A partir da reciclagem do plástico, startup instalada no PCT Guamá produz insumos para serem utilizados na construção civilO plástico trouxe inovações para diferentes áreas da sociedade, em especial, ao setor de saúde, por conta da redução de contaminação e transmissão de doenças com o uso de descartáveis. A grande escala de fabricação de materiais plásticos, no entanto, e, principalmente, o descarte irregular no meio ambiente transformam esse material em um grande desafio para a causa ambiental.

Em Belém, no Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, mantido pelo Governo do Pará, há uma iniciativa com potencial para absorver parte do problema. Trata-se da Seixo de Plástico, startup (termo que designa empresa nova oferecendo produto novo) que desenvolveu uma metodologia própria para produzir tijolos, broquetes, tubos, blocos com e sem função estrutural, telhas, entre outros produtos comumente derivados do concreto, a partir do reaproveitamento de diferentes resíduos sólidos, em especial plásticos e vidros. 

Empresa aproveita até plástico rejeitado pelas recicladorasA associada ao Parque de Ciência e Tecnologia (PCT) Guamá, a startup Seixo de Plástico oferece a possibilidade de aproveitar qualquer tipo de plástico, inclusive os que não têm valor econômico às cooperativas por conterem diferentes camadas de materiais ou impurezas.

“Se levar um volume de plástico grande para uma recicladora, se ele tiver sujo, pode ser que volte para o lixão, porque vai se gastar energia e materiais para limpar esse plástico e isso encarece o processo”, afirma o engenheiro Marcos Sousa, um dos inventores da tecnologia e sócio da Seixo de Plástico.  

O engenheiro civil Marcos Sousa frisa que "Belém gera em torno de 200 toneladas de plástico por dia, desse volume, apenas 2,8% é aproveitado. Do plástico que chega dentro de uma cooperativa, observamos, a partir de uma pesquisa própria, que cerca de 20% acaba voltando para o lixão".

"Na nossa região embalagens plásticas com uma fina camada de alumínio, como as de café e de biscoito, são 100% descartadas porque é necessária uma reciclagem química ou energética. Dentro do nosso processo a gente pode reutilizar isso e aproveitar todos os tipos de plásticos”, complementa o engenheiro.

Considerada um negócio de impacto socioambiental, a startup consegue ainda aproveitar outros tipos de materiais em seu processo produtivo. “O nosso foco é o plástico, mas paralelo a isso a gente consegue reutilizar o vidro, porque ele tem propriedades semelhantes às da areia, utilizada adicionalmente para se fazer qualquer coisa na construção civil. Não interessa se é de lâmpada, de copo ou de garrafa, podemos inserir qualquer tipo de vidro nesse processo”, garante Marcos Sousa.A reutilização de vidro também é feita pela startup Seixo e Plástico

“Outra possibilidade é a utilização de resíduos da mineração, capazes de oferecer maior resistência ao grão. Os resíduos das mineradoras aqui no estado, apesar de diferentes, têm propriedades muito semelhantes. Nós não fazemos a fusão dos metais presentes ali, mas podemos fazer a união deles para gerar um material bem resistente”, sustenta o engenheiro.

A startup está saindo da fase de prototipagem, feita em uma fábrica piloto, infraestrutura instalada no PCT Guamá, com o apoio gerencial da Fundação Guamá, organização gestora do parque, e apoio financeiro da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa), com o objetivo de aperfeiçoar o processo de fabricação.

“Nós estamos no processo de produção de quatro mil tijolos, necessários para construir uma casa popular modelo na área do parque tecnológico. A previsão é que o processo da produção dos materiais e da construção da casa dure três meses”, informa o engenheiro.

Diretor administrativo financeiro da Fundação Guamá, Arnaldo José de Miranda afirma a importância do investimento em inovação para o fomento da cena empreendedora local. “Sempre vimos com bons olhos o projeto desenvolvido pela startup e sabíamos do grande potencial de inovação".

"Acolhemos o projeto e o submetemos à Fapespa para captar os recursos necessários à implantação da unidade piloto. A startup ainda tem muito potencial de crescimento, certamente este investimento trará retornos importantes à sociedade, com a geração de postos de trabalho e a contribuição para sanar problemas ambientais”, pondera o diretor.

Um trabalho de conclusão de curso e uma vela como ponto de partida

A ideia da startup surgiu em 2016, enquanto Marcos Sousa, então estudante de Engenharia Civil, buscava a pergunta base que guiaria o seu trabalho de conclusão de curso em uma universidade particular em Belém.

“Um professor tinha sugerido que eu investigasse a origem do seixo. Dependendo dessa origem, ele pode ser mais ou menos rígido, então a gente usa esse índice para calcular a taxa de ferragem, conseguindo aumentar esse índice, seria possível diminuir o custo de uma obra”, relembra Marcos.

No processo de investigação, ele procurou pesquisadores da UFPA, e após conversas com diferentes profissionais, "cheguei em casa, acendi uma vela, peguei um plástico e ele encolheu, depois de amassar o material na mão, vi que ele ficou bem rígido. A minha curiosidade aguçou e comecei esse processo de investigação para apurar se esse material poderia ser utilizado na construção civil”, contou. 

O amigo e colega de classe de Marcos Sousa, Carlos Lourenço Sanches entrou como parceiro e os dois criaram a sociedade, que depois, em 2019, também ganhou o endosso da arquiteta Leila Furtado, MBA em gestão empresarial.

“Ao longo desses anos muita coisa mudou, antes éramos focados apenas no polipropileno, um tipo específico de plástico. Mas pensamos que utilizar só um tipo não teria como viabilizar economicamente, até separar tudo é muito difícil, então começamos a investigar a união entre os plásticos”, explicou Marcos Sousa.

Passada a fase da união dos materiais, surgiram algumas preocupações como produzir um material inerte, como seria a dilatação dele no calor e no frio. “Fizemos uma investigação muito séria em relação a isso. Quando os resultados foram positivos, começamos a caminhar de fato com o projeto e fizemos testes de resistência e mecânica na UFPA. Também verificamos que a propriedade térmica do material fica muito próxima do tradicional, já que a parte externa é basicamente areia e cimento”, afirma o engenheiro.

Entre 2018 e 2019 a startup se tornou residente no PCT Guamá. “Foi um período bem interessante, em que as portas começaram a se abrir, por conta de estarmos instalados em um ambiente de inovação”, frisa Marcos.

A startup também fez parceria com outros atores do ecossistema local de inovação, a exemplo do Instituto Senai de Mineração, para o acesso a laboratórios específicos para testar os produtos feitos com o rejeito de mineração, e da Agência de Inovação Tecnológica da UFPA, a Universitec.

A Seixo de Plástico está na fase de captar investimento para comprar o maquinário e implantar uma unidade fabril com capacidade de produção em escala comercial. A perspectiva é que a fábrica seja instalada em Icoaraci, distrito de Belém que abriga uma das maiores cooperativas recicladoras de plástico da região.

MEIO AMBIENTE

A sociedade contemporânea usufrui da diversificação de materiais plásticos no setor de saúde, e ainda no setor automotivo, com o ganho de eficiência energética nos carros, e ao setor alimentício, com o aumento da vida útil de prateleira dos alimentos. Contudo, cada vez, são necessárias produções sustentáveis.

O artigo da revista Science Advances "Production, use, and fate of all plastics ever made" (Produção, uso e destino de todo o plástico já feito), publicado em julho de 2017 e considerado um dos estudos mais relevantes sobre o tema,  aponta que cerca de 4,9 bilhões de toneladas de plástico estão acumuladas em aterros sanitários e na natureza.

É tanto plástico que pesquisadores já encontraram fragmentos com dimensões micrométricas, os chamados microplásticos, no ar, na água, em alimentos consumidos por humanos e até na placenta de grávidas. Por isso, iniciativas como a da Seixo de Plástico são, de fato, promissoras.

Por Juliane Frazão (PCTGuamá)