Setembro Verde: doação de órgão é a esperança para quem aguarda por um transplante

No Pará, Ophir Loyola é referência no assunto. Unidade de saúde possui comissão responsável pela organização do hospital para que haja a detecção de possíveis doadores

24/09/2020 13h36 - Atualizada em 24/09/2020 17h25
Por Leila Cruz (HOL)

Germano Filho é transplantado renal. Ele recebeu a doação de um rapaz de 28 anos, após autorização da famíliaEm todo território nacional, é celebrado o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. O movimento traz uma reflexão de que é no momento delicado do luto que pode surgir a esperança para quem aguarda por um transplante. Mas, somente com a autorização da família do doador falecido, é possível fazer a captação de órgãos e tecidos no Brasil, mesmo que, em vida, a pessoa tenha manifestado a opção de doar. Após essa decisão nobre e solidária de parentes de um rapaz de 28 anos, uma parte dele vive no transplantado renal Germano Filho, de 53 anos.

Para quem autorizou, a doação é um instrumento de consolo. E para quem recebeu, como Germano, permanece eternizado o sentimento de gratidão aos desconhecidos que lhe devolveram qualidade de vida e possibilitaram fazer algo tão simples e prazeroso: beber água. Ele conta a história de quando começou a sentir dores muito fortes nas costas, ausência de urina e perda de apetite. “Eu não tinha ideia do que era uma doença renal. Receber a notícia foi terrível, os médicos estavam muito preocupados, meus dois rins pararam”, recorda.

Após o diagnóstico, ele foi encaminhado ao Hospital Ophir Loyola, em Belém, onde chegou em cadeiras de rodas e muito debilitado. Pensou que a vida terminaria ali, ligado a uma máquina. Mas não era isso que o futuro lhe reservava, apesar dos quatro anos de hemodiálise. Tudo era controlado: água, alimentação, sal e, principalmente, a sede. Os momentos de tensão eram substituídos pela fé em encontrar um doador compatível. Por duas vezes, fora chamado, mas somente na terceira recebeu a tão esperada notícia.

“Quando me informaram que seria eu, fui ao céu, e toda minha família compartilhou da minha alegria. É um alívio não estar preso àquela máquina, o transplante modificou a minha vida. Antes não podia, hoje alivio a minha sede”, afirma Germano, que faz uso de imunossupressores para evitar a rejeição do enxerto e passa por consultas e exames de controle, a cada três meses no HOL.

O transplante é uma modalidade terapêutica de alta complexidade indicada para pessoas com patologias graves. Trata-se da transferência de células, tecidos ou órgãos de um doador para o receptor ou de uma parte do corpo para outra (por exemplo, os enxertos de pele) com a finalidade de restabelecer uma função perdida. A maioria ocorre com doador falecido em conformidade com os critérios estabelecidos por lei, que podem ser cronológicos ou por gravidade.

Vida

Uma doença ocular que deixa a córnea com o formato semelhante a um cone e provoca a percepção de imagens borradas e distorcidas, a Ceratocone, retirou a capacidade de enxergar dos dois olhos de Luiz Paulo Lobato, aos 20 anos.  A enfermidade que afeta a estrutura da córnea é a principal indicação ao transplante em pacientes jovens no estado do Pará.

Luiz Paulo Lobato hoje tem uma vida normal após o transplante de córnea feito no HOLA princípio, Luiz não sentiu sintomas, mas as complicações vieram depois, com coceira, ardência e visão embaçada. O diagnóstico foi um choque. Ele ainda estava dando início ao ensino médio e contou com ajuda dos amigos para terminar o período. Foram sete anos na fila de espera até conseguir uma córnea. O primeiro transplante realizado no Hospital Ophir Loyola ocorreu final de 2012 no olho direito e esperou mais dois anos para fazer o lado esquerdo, quando voltou a enxergar completamente.

“Foi uma conquista! Eu, literalmente, comecei a sonhar novamente e planejar o futuro. Já não dependo das pessoas e nem dos colegas para copiar os assuntos. Logo após a cirurgia, a visão não volta de imediato, foi todo um processo até chegar ao momento atual. Estou estudando para concurso público, agora sou capaz, estou com olhos pronto para a vida” - Luiz Paulo, paciente receptor.

Entre janeiro a junho de 2020, o Pará tinha 1.228 pessoas aguardando por um transplante, sendo 920 por um transplante de córnea e 308 por um rim, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes. No mesmo período, 64% das famílias abordadas no Estado recusaram a doação, seja por desconhecer a vontade de doar do parente falecido, por desinformação, falta entendimento da morte encefálica ou ainda por questões religiosas. Devido à pandemia e ao grande risco de contágio, a doação só pode ser efetivada se o doador (vivo ou falecido) e o receptor testarem negativo para Covid-19. O teste é feito em todos os envolvidos.

Quem pode doar

Um único doador cadáver pode beneficiar vários receptores, selecionados a partir de uma lista única da Central Estadual de Transplante. Muitos não sabem, mas alguns órgãos e tecidos podem ser doados em vida, como o rim, medula óssea e parte do fígado. A doação intervivos é autorizada somente para cônjuge ou parentes até o 4º grau (pais, irmãos, netos, avós, tios, sobrinhos e primos), desde que o procedimento não seja prejudicial à saúde do doador.

Médico Jair Graim, coordenador da Comissão Intra-hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos (Cihdott) do Hospital Ophir LoyolaSegundo explica o coordenador da Comissão Intra-hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos (Cihdott) do Hospital Ophir Loyola, o médico Jair Graim, o doador é avaliado com base na história clínica, antecedentes médicos e exames laboratoriais, sorologia e testes de compatibilidade para prováveis receptores. A comissão é responsável pela organização do hospital para que haja a detecção de possíveis doadores.

“A maioria das doações são provenientes de doadores falecidos, os receptores são beneficiados conforme a ordem cronológica de inscrição em função da gravidade ou compatibilidade genética ou sanguínea. É importante esclarecer que a captação só ocorre com a comprovação do óbito e a vontade da família sempre prevalece, o sim dos familiares é sinônimo de vida. A doação poder ser a única esperança ou oportunidade de recomeço para quem espera por um transplante”, ressalta o médico.