TerPaz renova esperanças e garante direitos de cidadania

Programa Territórios pela Paz completa um ano de combate à violência urbana e de defesa de direitos, no próximo 11 de julho

08/07/2020 16h36 - Atualizada em 11/07/2020 16h32
Por Dayane Baía (SECOM)

Nascida e criada na Cabanagem, Sabrina Santana elogia o TerPaz, cujo polo é na Escola José Valente Ribeiro, onde ela sempre estudou Consolidando uma política pública de combate a violência e defesa de direitos da cidadania, o Programa Territórios pela Paz (TerPaz) completará um ano de atividades no bairro da Cabagem, no próximo dia 11. Um ano em que o Governo do Pará, por meio de uma câmara técnica intersetorial que envolve 37 órgãos, se propôs a transformar o cenário de violência e falta de assistência nos bairros da Cabanagem, Guamá, Terra Firme, Benguí, Jurunas, Icuí-Guajará, em Ananindeua, e Nova União, em Marituba.

Logo após o casamento, há 32 anos, Socorro Meireles se mudou para uma área de invasão que deu origem ao atual bairro da Cabanagem. “Cheguei no tempo que era lamparina, tinha alguns vizinhos. Os terrenos eram grandes e mais baratos. Construí minha vida aqui, tive filhos, depois veio a energia elétrica puxada de um ‘gato’ da Augusto Montenegro”, lembra a moradora que viu seus sonhos de uma vida melhor se esmaecerem ao longo dos anos.

A casa dela, por muito tempo, foi invadida pelas enchentes, a própria vizinhança se encarregou de aterrar a rua com lixo. Ano após ano, a Cabanagem foi alvo de promessas que nunca se concretizaram até 2019, quando o bairro se tornou o primeiro território de pacificação, do Programa Territórios pela Paz (TerPaz).

Coordenadora de Rede Local do Territórios pela Paz na Cabanagem, Marisa Lima diariamente atua para transformar a realidade local “Quando começamos, a primeira preocupação foi tentar entender a dinâmica do bairro, seus desafios, entraves e potencialidades. Ao andar para conhecer as ruas, percebi que era um bairro que não tinha nada. Os únicos aparelhos do Estado eram as escolas e a delegacia - que caracterizava o alto índice de violência que existia aqui”, conta Marisa Lima, coordenadora de Rede Local no Programa Territórios pela Paz na Cabanagem, que começou a atuar no bairro em fevereiro de 2019.

Com esse histórico, resgatar a confiança não foi tarefa fácil ao longo de um ano. “Os moradores pensavam que faríamos algumas atividades aqui e iríamos embora, como era o costume ao longo dos anos. O primeiro desafio foi passar a confiança de que nós viemos para ficar”, lembra Marisa.

A desconfiança é confirmada pela moradora Socorro Meireles, que mesmo com a vista cansada, sempre ficava de olhos bem abertos. “Ixi, mais um que vai nos deixar esquecidos novamente”, pensou ela assim que iniciou a nova gestão do Governo do Pará.

“Mas foi diferente, o governador (Helder Barbalho) deu um tapa no rosto de muita gente e mostrou que ele está aqui para fazer pelos menos beneficiados. É muito fácil pegar uma rua já existente e passar uma camada de asfalto. Mas você pegar um bairro que tá ali cru como uma joia para ser lapidada, dá muito trabalho. E ele vai ser o primeiro governo a lapidar esse bairro”, admite Socorro.

AÇÕES NA CABANAGEM

Desde o dia 11 de junho, foram realizados 31.925 atendimentos nas 342 ações de políticas públicas de inclusão social realizadas no bairro. Já orgulhosa com os seus óculos novos, Socorro Meireles vê um futuro melhor. “Se em apenas um ano já foi feita tanta coisa, estamos na esperança de que vem muito mais para nós. Estamos vendo cair o índice de violência e assaltos. Estamos ansiosos como uma noiva prestes a casar”, disse ela.

SEGURANÇA 

O reforço das forças policiais é uma das estratégias do TerPaz com ações táticas, realizadas pelas forças do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar e por efetivos especializados da Polícia Civil. Todos com o objetivo de garantir a segurança da comunidade e servidores envolvidos nas ações.

Segundo a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), comparando janeiro a dezembro de 2018 e 2019, houve queda na criminalidade em vários pontos do bairro da Cabanagem.

O crime de homicídios registrou redução de 85% no bairro do Bengui, 62% no Icui-Guajará; 60% no Jurunas, 52% no centro de Marituba, 44% na Terra Firme e 29% no Guamá. Os casos de roubos caíram em 34% no bairro do Jurunas, 32% na Terra Firme, 26% no Guamá, 21% Cabanagem e 13% no Icuí-Guajará.

“O TerPaz trouxe uma esperança de que agora, de fato, nós vamos pertencer. Antes nós não tínhamos vez e nem voz. Não foi preciso fechar a Augusto Montenegro e a Independência para sermos ouvidos. Foi ele (o programa) que veio até nós. Consegui consulta especializada, oftalmologista, cardiologista. Para minha filha conseguimos uma ultrassonografia craniana que tentamos várias vezes antes. É isso que está nos motivando a acreditar cada vez mais no TerPaz”, acrescentou Socorro Meireles.

EDUCAÇÃO

Na Cabanagem, a Escola Estadual José Valente Ribeiro é o polo do TerPaz A diretora da unidade, Ivanilda Vieira ressalta o desafio de fazer educação em uma área carente.

“Até 2019, nosso maior desafio era superar as dificuldades do bairro e para isso sempre trabalhamos a afetividade no cotidiano dos pais e alunos. Isso colaborou para construirmos nossa história na Cabanagem. Em 2019, passamos a ter um apoio maior com a presença do governo aqui”.

Com 20 anos de trabalha no bairro, a diretora Ivanilda Vieira lista os benefícios do programa. “O TerPaz trouxe cursos, atividades, formação, os alunos passaram a conhecer um pouco mais da cidade para além do bairro. Tivemos pais que nunca haviam entrado no Theatro da Paz e hoje eles querem ir, já sabem como funciona”.

A escola passou a ter em seu dia a dia ações desenvolvidas por órgãos do governo, como o curso de Assistente Administrativo, da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Educação Profissional e Tecnológica; o Cantinho Verde, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas; oficina de Fotografia, da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom); projeto Cenas da Paz, da Rede Cultura de Comunicação (Funtelpa). 

“Os nossos alunos, até então, eram muito tímidos, sempre muito educados, mas se sentiam recriminados. Quando o Cenas da Paz veio, mostrou que eles podem ser como são, com sua cor da pele e cabelos, por exemplo. Eles passaram a se olhar e se assumir enquanto indivíduos, pessoas e cidadãos. Já a fotografia mostrou o outro lado, dos moradores, feirantes, pessoas que estão na rua. Eles passaram a enxergar essas pessoas com outro olhar”, analisou a diretora. 

Outra ação de destaque nesse primeiro ano de programa foi promovida pela Secretaria de Estado de Administração Penitenciária. “Nós trabalhamos com pessoas privadas de liberdade que estão tentando retornar à sociedade. Eles vieram pintar a escola, roçar, conviver com os alunos e fizeram uma palestra contando um pouco da vida deles. Isso mexeu muito com os alunos, você vê um outro contexto. Alguns têm familiares nessa condição e puderam acreditar que uma nova sociedade é possível”, afirmou a diretora Ivanilda. 

JUVENTUDE DO PRESENTE E DO FUTURO 

Nascida e criada na Cabanagem, Sabrina Santana, de 18 anos, conhece os corredores e cada cantinho de sala de aula da escola em que passou a vida. Mas no início do ano letivo de 2019, as expectativas criadas ao longo da vida estavam distantes de se concretizar.

Em julho de 2019, a jovem Sabrina Santana renovou suas esperanças dando uma guinada na sua trajetória. “Tudo o que vivenciamos no decorrer desse um ano, são coisas que sonhávamos lá atrás mas que até então não tínhamos apoio. A chegada do TerPaz trouxe oportunidades para tirar o jovem da rua, para se voltar para fazer atividades na escola”.

Sabrina contou que fez cursos de informática, audiovisual e conseguiu participar de um processo seletivo de estágio através do TerPaz. “Foram novas expectativas que nós criamos, agora quero fazer jornalismo. Antes eu enxergava somente sonhos sem a prática e hoje em dia eu vejo tudo funcionando, estão sendo construído não só para mim mas para as pessoas do futuro”, comentou Sabrina.

Para a coordenadora de Rede Local no Programa Territórios pela Paz na Cabanagem, Marisa Lima, o desejo é de ter sempre novas história para contar nos próximos anos. “Há um ano eu tinha um terreno abandonado, hoje temos uma usina sendo construída que já vai ter sido entregue daqui a um ano. Estamos avançando com o Estado presente resgatando sonhos, renovando esperanças e acima de tudo, garantindo o direito que foi negado”, finalizou Marisa se referindo à Usina da Paz (UsiPaz).  

USINAS DA PAZ 

Coordenadas pela Seac, as Usinas da Paz consistem em grandes complexos públicos, em áreas de aproximadamente 10 mil metros quadrados, com a finalidade de garantir a permanência do Estado nos territórios, com ênfase na prevenção à violência, inclusão social e fortalecimento comunitário, com três eixos fundamentais: assistência, esporte/lazer e cultura.

A obra da UsiPaz da Cabanagem já está na segunda etapa com a construção da fundação. A proposta dos complexos é conter salas de audiovisual, inclusão digital e serviços como atendimento médico, odontológico, consultoria jurídica, emissão de documentos, segurança, escola de gastronomia, espaços integrados, multiuso para feiras, eventos e encontros da comunidade. Também serão espaços para a prática de cursos livres, espaços de dança, artes marciais, salas para musicalização e biblioteca. 

Além de democratizarem o acesso ao esporte, lazer e à produção cultural, essas atividades concretizarão a convivência comunitária e propiciarão a prestação de serviços pelas secretarias estaduais e órgãos governamentais envolvidos no TerPaz.