Emater: Piscicultores de Bragança vão replicar tecnologia pioneira de pirarucu

Atividade ocorreu em Benevides e reuniu 30 produtores e empresários do setor pesqueiro

06/02/2020 09h43 - Atualizada em 06/02/2020 12h06
Por Aline Miranda (EMATER)

Couro do pirarucu pode abastecer o mercado europeu de alta-costura, constituindo bolsas, cintos e sapatosCerca de 30 piscicultores e empresários do setor pesqueiro de Bragança, na região do Salgado, participaram, na quarta-feira (5), de um intercâmbio em Benevides, na região metropolitana de Belém, para se aprofundarem na tecnologia pioneira de cultivo adensado de pirarucu em tanque suspenso. A técnica foi desenvolvida em uma propriedade-referência com a ajuda do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado do Pará (Emater).

O local onde ocorreu o treinamento fica na Estrada da Koréia, no bairro Santa Maria, no distrito de Benfica, onde, desde o ano retrasado, o produtor Eduardo Arima mantém cerca de 2.500 pirarucus em 10 tanques. São abatidos 20 peixes por semana, totalizando por volta de 30 toneladas por ano. O Projeto da Emater tem o apoio da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) e Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Mineração e Energia (Sedeme).

A carne nobre, conhecida como “bacalhau da Amazônia”, é vendida para restaurantes da capital e o couro, uma extração mensal de dois m², está sendo testado, em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA), para, depois de curtido, abastecer o mercado europeu de alta-costura, constituindo bolsas, cintos e sapatos. O material é disputado no estilismo de luxo pelo caráter exótico, reciclado, ecológico e biodegradável.

Intercâmbio

Um dos produtores que participou da atividade foi Francisco Quadros, da localidade Jararaca, atendido pela Emater há três anos. A família é composta por 20 pessoas: o núcleo de três irmãos e os respectivos cônjuges e filhos, que criam tambaqui em dois tanques e plantam banana, melancia e açaí, entre outros.

Francisco Quadros, da localidade Jararaca, é atendido pela Emater há três anos e participou do intercâmbio“Eu vim aqui para aprender a produzir mais alimento. Porque eu sou um colono que passou 30 anos na cidade e voltou há 20 anos pra sua terra porque o coração do colono, a vontade saudosa, é sempre voltar – e melhorar o lugar onde nasceu, inclusive plantando alimento. Tudo aquilo com que eu trabalho nos meus 58 hectares eu posso dizer que alimenta direta e indiretamente a minha família, porque a gente come e vende”, adianta Quadros.

Gineto Aranha, da Vila da Mocajuba, na localidade de Montenegro, manifestou interesse na atividade. “Somos 10 parentes trabalhando exclusivamente na agricultura. Quanto mais ampliarmos nossa capacidade de geração de renda, melhor. Somos um negócio em expansão”, anima-se.

Além dos produtores, o grupo intercambista inclui técnicos do escritório local da Emater em Bragança e o secretário municipal de Aquicultura e Pesca, Danilo Gardunho. Os produtores são beneficiários do Programa de Desenvolvimento da Aquicultura Sustentável da Prefeitura.

Tecnologia e Mercado

"Podemos dizer que a experiência nesta propriedade é única e diferenciada. Estamos apresentando para o Pará um sistema novo. Apropriamos e adaptamos tecnologias e simulamos o ciclo natural de comportamento e vida do pirarucu na natureza, com um resultado atual de superprodutividade em pequenas áreas. Além de se tornar mais acessível ao agricultor familiar, que não é rico, essa questão até perpassa a vantagem ambiental", aponta o engenheiro de Pesca do escritório local da Emater em Benevides, Victor Tiago Catuxo, especialista em Gestão Ambiental.

De acordo com o técnico em Piscicultura da Emater em Bragança, Leonardo Miranda, que também é engenheiro de Pesca, a piscicultura no município está “engatinhando”: “Nossa busca agora é justamente estimular e capacitar, com acesso a tecnologia, provando que a atividade é viável no tamanho das propriedades e como fonte financeira”, declara.

Para o secretário de Agricultura de Bragança, Danilo Gardunho, o principal desafio do setor ainda é mercado, sobretudo pelo valor diferenciado do pirarucu. “Por isso, estamos integrando de imediato o empresariado, para que o agricultor familiar invista já com garantia de venda e para que o setor se prepare para absorver. É um ganho para todos, um movimento revolucionário na socioeconomia do município”, contextualiza.

Projeto

O projeto-piloto de Benevides envolve vários aspectos e municípios da agricultura familiar: o produtor Eduardo Arima Arima adquire alevinos de fornecedores de Abaetetuba e ração de São Miguel do Guamá; o couro é enviado para curtimento artesanal em uma comunidade de Bragança.

Os tanques possuem 6m de diâmetro e 28 m³ de profundidade, com 180 peixes em cada, sendo esse considerado um adensamento condizente com a performance típica da espécie em seu habitat natural. Os peixes são abatidos em um ano, quando atingem 10 quilos.

“A partir de tratamento químico, estamos em fases de testes para, com o processamento do couro cru, justapor às exigências dos importadores. Queremos alcançar um nível de maleabilidade, considerando odor, aparência, para a utilização como tecido” - Marileide Alves, professora do curso de Engenharia de Pesca do campus Bragança da UFPA e doutora em Engenharia Química.

O cultivo de pirarucu em tanque é regido por normas governamentais de segurança e registro. São necessários, por exemplo, licença simplificada, conforme resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), e Cadastro Técnico Federal (CTF) emitido pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Além disso, a propriedade precisa de Cadastro Ambiental Rural (CAR) e outorga de água.