Penúltimo dia de Festa Literária reúne vozes originárias, indígenas e da mulher

Público teve a oportunidade de debater com a escritora Márcia Kambeba, com a multiartista Carol Pabiq e com a jornalista Cristina Serra

08/12/2019 15h32 - Atualizada em 09/12/2019 11h34
Por Úrsula Pereira (SECULT)

Márcia Kambeba falou de literatura feita por mulheres no ParáNo penúltimo dia da Festa Literária de Bragança, no sábado (7), três grandes mulheres deram a tônica de representatividade para homenagear as vozes indígenas e originárias e as vozes da mulher: a escritora Márcia Kambeba, multiartista Carol Pabiq e a jornalista Cristina Serra. Realizado no Liceu de Música, o evento ocorre até este domingo (8), na cidade bragantina.

Márcia Kambeba, escritora de origem Omágua Kambeba do Amazonas, foi destaque na palestra “A mulher indígena e o bem viver”, discutindo sobre a importância do respeito à ancestralidade, à cultura originária e à resistência e luta das populações nativas do nosso território. A multiartista Carol Pabiq, paraense de Ananindeua, estava na Roda de Conversa “Literatura feita por mulheres no Pará” e trouxe para o debate toda a sua história e formação como mulher negra afro-ameríndia da Amazônia.

Já a jornalista Cristina Serra esteve no Encontro Literário comentando sobre seu livro-reportagem "Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil", lançado em 2018, e o novíssimo “Uma história de conservação: A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado”, obra que retrata uma experiência científica brasileira exitosa que conseguiu repovoar a Mata Atlântica com o mico-leão-dourado e tirá-lo da lista de espécies seriamente ameaçadas de extinção.

Márcia Kambeba é mestre em Geografia, escritora, compositora, poeta e fotógrafa. Durante sua palestra, mediada pela professora Larissa Fontinele, Márcia contou que nasceu e cresceu na aldeia do povo Ticuna e, aos 8 anos, se mudou para a cidade, mas visitava os parentes frequência. O amor pela palavra iniciou ainda criança com sua avó, que contava histórias. Aos 14 anos ela começou a escrever seus próprios poemas. Entre canções e declamações – símbolos de resistência e luta – ela levantou questões sobre aculturação dos povos originários, que tiveram seus saberes, línguas, crenças e modos de viver destruídos pelo dito ‘colonizador’.

“Precisamos descolonizar. Para iniciar, não somos índios, somos povos originários. Quando vamos falar de um determinado grupo de pessoas, nos referimos ao povo e não à quantidade de indivíduos. Tenho andado muito nas escolas orientando questões elementares, por exemplo, para nós não existe dia do índio. Essa foi uma data criada pelo ‘colonizador’ e o Relatório Figueiredo está aí para mostrar o quanto foi brutal o contato com o homem branco. Não temos o que comemorar”, afirmou a escritora.

Cristina Serra nasceu em Belém, iniciou a faculdade de jornalismo na Universidade Federal do Pará e terminou o curso na Universidade Federal Fluminense. Trabalhou em redações de diversos jornais, entre eles, Jornal do Brasil, revista Veja, e ficou conhecida na Rede Globo onde passou por diversas experiências na televisão, como repórter de política em Brasília, correspondente em Nova York e, em 2015, foi escalada pelo Fantástico para a cobertura do desastre em Mariana, em Minas Gerais, considerada a maior tragédia ambiental do país.

Na obra, a autora discorre sobre como funciona o licenciamento ambiental no Brasil, que ela trata como “irresponsável”, e relata as tentativas frustradas de entrevistar os dirigentes das instituições de licenciamento ambiental que, de acordo com procuradores do Ministério Público de Minas Gerais, deram um “cheque em branco para a Samarco operar uma barragem sem ciência do projeto”.

Segundo Cristina, foram três anos de pesquisa e exaustiva checagem de números. Seu primeiro livro-reportagem reúne também informações sobre as 19 pessoas mortas em Mariana e os relatos de descaso diante do crime.

“Nenhuma imagem ou vídeo sobre essa tragédia consegue explicar o sentimento de ver tudo pessoalmente. A descrição desse primeiro momento me exigiu muito trabalho. Como descrever algo que nunca se viu? Chico Buarque acertou em sua composição ‘Notícia de Jornal’, quando escreveu que ‘a dor da gente não sai no jornal’. Essa frase me faz pensar sempre que embora a gente tente, jamais conseguiremos retratar a dor do outro, que é tão íntima. Por trás de todo acontecimento, tem sentimentos, histórias, famílias e emoções”, e continuou. “Ser jornalista é um privilégio, mas é uma responsabilidade muito grande também. Tudo que sou e o que tenho devo ao jornalismo”, afirmou Serra.

O estudante do curso de história da UFPA, do campus Bragança, pediu licença à jornalista para comentar sobre a questão ambiental na Amazônia. “Não existe e nem nunca existiu um projeto político que olhasse pelo desenvolvimento em nosso território. Sempre foi uma relação predatória desde a ‘colonização’. Muito se fala sobre preservar a Amazônia. Nossas populações indígenas e quilombolas precisam muito mais da floresta em pé. Estamos sós e somos nós, por nós mesmo”, afirmou.

A Festa Literária de Bragança é uma realização do Governo do Pará, por meio da Secretaria de Estado de Cultura (Secult), em parceria com a Associação Sociocultural e Recreativa de Bragança (Ascubra) e apoio da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), Fundação Cultural do Pará, Universidade Federal do Pará (UFPA - Campus Bragança) e Universidade do Estado do Pará (Uepa), por meio do Liceu de Música de Bragança, integrando as políticas públicas de fomento ao livro, à leitura e à difusão das linguagens e expressões culturais e artísticas.

Programação

Domingo (8) – Vozes dos Homenageados/Vozes Afro brasileiras

Arena Multivozes

18h – Roda de Conversa

Tema: "Marujada de São Benedito de Bragança: Patrimônio Cultural do Brasil"

Convidados: Dário Benedito Rodrigues (Bragança/PA)

Mediação: Mariana Bordallo (UFPA - Bragança/PA)

19h30 – Encontro Literário

Convidada: Zélia Amador (Belém/PA)

Livro: Ananse Tecendo teias na diáspora

Mediação: Maria Roseane Corrêa Pinto Lima (UFPA - Bragança/PA)

21h – Programação Cultural

Toni Soares (Bragança/PA)

Serviço:

A Festa Literária de Bragança é parte da 23ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, uma ação do Governo do Pará por meio da Secretaria de Cultura (Secult). Até este domingo (8), de 10h às 22h, no Liceu da Música de Bragança. A entrada é franca.