Projeto da Sejudh capacita mais de 200 mulheres de Breves e Bagre

A iniciativa mostrou às mulheres do município que elas podem caminhar com as próprias pernas e garantiu que o poder público local vai dar andamento as atividades para implementação de cooperativas.

10/11/2019 09h48 - Atualizada em 10/11/2019 15h09
Por Claudiane Santiago (SEJUDH)

Mais de 200 mulheres de Breves e Bagre, no arquipélago do Marajó, receberam capacitação voltada para o empreendedorismo, geração de renda e autonomia financeira, entre os dias 7 e 8, na segunda etapa do projeto “Mulheres Marajoaras: Com elas e por elas”, do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh).

Como a maioria delas já atua em atividades produtivas, a proposta do projeto é oferecer mais qualificação, acesso à informação e capacitação técnica, mostrar os caminhos da formalização e ampliação dos seus negócios. Também foi apresentada a possibilidade de linhas de crédito e ações de fomento para valorizar o trabalho que já é desenvolvido na região

Durante dois dias, elas participaram das oficinas de “Empreendedorismo”, “Alternativa de Geração de Renda” e “Empoderamento Feminino” para conhecer e saber mais sobre como ampliar as atividades desenvolvidas nos dois municípios, ministradas por profissionais do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e

Pequenas Empresas (Sebrae), da Rede Feminista de Economia Solidária (Resf/Pa) e do Instituto Federal do Pará (IFPA).

“A Sejudh leva para elas uma ação de Estado para conscientizar homens e mulheres no combate à violência, sobretudo possibilitar autonomia financeira para que a população feminina marajoara possa se libertar do ciclo de violência e garantir renda pra si e seus familiares”, explica o titular da Sejudh, Rogério Barra.  

Muitas, por exemplo, já são artesãs, mas não sabem como escoar as peças ou como divulgar o trabalho, outras desenvolvem atividades milenares, como o trabalho de parteira e o manuseio das plantas para fins medicinais, no entanto, ainda não atuam em associação ou cooperativa, segundo explica a instrutora do Sebrae, Larisce Lauton.

A técnica de plantas medicinais, Nazaré Almeida, de 59 anos, ficou feliz em saber da possibilidade de levar seus conhecimentos tradicionais para outras pessoas e ganhar dinheiro com a iniciativa. “A gente aprendeu sobre associação, cooperativismo, como funciona cada uma e a diferença entre elas, e que eu posso caminhar com minhas próprias pernas levando meus conhecimentos para outras pessoas e, juntas, ganhar dinheiro pra se sustentar e ajudar nossas famílias”, declarou.

Com elas e por elas - Breves e Bagre foram os primeiros municípios de uma ação inédita, iniciada no último dia 5, que vai percorrer mais quatro municípios marajoaras, entre os meses de novembro e dezembro, para levar oficinas no combate à violência e promover a emancipação da mulher a partir da autonomia financeira.  O projeto é desenvolvido em dois municípios, simultaneamente, no período de cerca de cinco dias, divididos em duas ações principais.

Nos dois primeiros, elas recebem oficinas sobre Direitos Humanos e Cidadania para aprender como identificar violação de direitos e a função dos órgãos de proteção e defesa, em cada situação, para saber como agir diante das práticas criminosas.

Nos dois seguintes, recebem oficinas de capacitação voltadas para o empreendedorismo, com objetivo de emancipar as mulheres por meio do trabalho. Nas ações, é trabalhada a modelagem de negócios, introdução ao associativismo e cooperativismo, para mostrar que o bordado, o crochê e demais vertentes do artesanato, por exemplo, podem ser além do que um hobby, podem ser transformado em oportunidade de negócio.  

Inédito no Pará, o projeto seguirá para os Portel de Melgaço, entre os dias 13 e 15 de novembro, e depois para Curralinho e São Sebastião da Boa Vista, nos dias 19 e 28 deste mês, com recursos de emenda destinada pelo deputado Luth Rebelo.  A iniciativa começou pela região do Marajó para mudar a realidade marajoara que, historicamente, apresenta baixos índices de desenvolvimento humano e acesso a políticas públicas, enfatiza o autor da emenda destinada para atender o projeto.

“Queremos combater a violência praticada contra a população feminina, sejam as agressões físicas e psicológicas causadas por parentes, maridos e desconhecidos, bem como contra a violência verbal e a desqualificação do papel da mulher”, frisou o deputado.

Superação – As mulheres em vulnerabilidade social atendidas nos municípios de Breves e Bagre, esta semana, já começaram a superar seus medos e olhar as atividades produzidas nas localidades como potencial de geração de emprego e renda.  A partir das oficinas, elas já se uniram para se fortalecer emocionalmente e superar o ciclo da violência.

Uma jovem de 32 anos, escravizada dos 15 aos 20 anos de idade por um auditor fiscal do Ministério do Trabalho, com quatro filhos, e com vergonha porque só consegue escrever o seu nome, apreendeu que nunca é tarde para começar e estudar, já foi encaminhada para o Ensino de Jovens e Adultos e tomou atitudes afirmativas em relação ao marido.

“Eu demorei a me inscrever porque não sei ler e escrever direito e todo mundo dizia que eu não conseguiria entender nada das oficinas. Quando cheguei e ouvi as histórias das minhas novas colegas, vi que não tô sozinha nessa e tem gente passando por situações piores que a minha. Depois da oficina, tive coragem para conversar com o meu esposo para me ajudar nos afazeres de casa, para que eu tenha tempo de estudar. Comecei e vou até o fim”, contou emocionada.  

Generosa Barbosa, 48 anos, 11 filhos, casada há 30 anos e violentada pelo marido no igual período, encontrou forças para frequentar os seminários e oficinas todos os dias e aprender a tomar novas atitudes diante da violação de direitos. “Eu apanho desde o início do casamento, não tomava atitude por conta dos nossos 11 filhos, mas agora entendi que preciso mudar isso.  Aprendi sobre a importância da denúncia e que eu estarei protegida, que eu preciso dar o primeiro passo”, relatou.

A coordenadora do núcleo regional da Sejudh, em Breves, Érica Silva, afirma que as mulheres saíram renovadas porque aprenderam que não estão sozinhas e podem contar com uma rede de assistência para protegê-las.  “Após dois dias de oficinas, elas não eram mais as mesmas mulheres que chegaram aqui com medo, cabeça baixa, com vergonha por não sabe ler. Teve uma que, mesmo adoentada e criticada pelo marido, não perdeu um dia de curso porque disse que queria aprender, não quer ser mais a mesma mulher. Elas saíram daqui renovadas”, declarou a coordenadora, que contou o apoio integral do Conselho Municipal da Mulher para mobilização das mulheres e realização das atividades no município.

A secretária Municipal da Mulher e Assistência Social de Bagre, Aracy Santa Maria, afirma que a iniciativa mostrou às mulheres do município que elas podem caminhar com as próprias pernas e garantiu que o poder público local vai dar andamento as atividades para implementação de cooperativas. “O projeto mostrou pra elas que podem ser reconhecidas como donas de suas histórias, a semente foi plantada pelo Governo do Estado e precisamos regar, para isso, vamos fazer um trabalho continuado junto a elas, para começar a cooperativa”, informou.