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Adolescentes privados de liberdade participam do Sarau Livro Solidário

Por Redação - Agência PA (SECOM)
06/06/2015 12h00

Com uma programação que contou com apresentações de teatro, música, poesia e contação de histórias, terminou na sexta-feira (6) a programação do Sarau Livro Solidário no Centro Socioeducativo de Benevides, que teve como convidado o escritor e jornalista Ignácio de Loyola Brandão, um dos participantes da XIX Feira Pan-Amazônica do Livro. O autor acompanhou o evento da Fundação de Atendimento Socioeducativo do Pará (Fasepa) voltado aos adolescentes que cumprem medidas de internação para estimular atividades voltadas à produção artística em locais que contam com o Espaço Livro Solidário.

Foram três semanas de ensaios até o momento da apresentação, que teve a exposição de obras do autor, como a dramatização teatral de “Os olhos cegos dos cavalos loucos”, além de declamação de contos pelos próprios adolescentes. Ignácio de Loyola Brandão conversou com os jovens e falou da experiência na literatura. Ele destacou que essa seria a primeira vez que faria uma apresentação voltada a adolescentes privados de liberdade e lembrou amigos de infância que se perderam para a violência e que não tiveram condições de contar com uma estrutura socioeducativa como as que existem atualmente.

“Tenho quase 80 anos e nunca tinha passado por essa experiência, apesar de ter tido dois amigos de infância que foram para espaços como esse, amigos com quem brincava, e a cadeia naquela época era outra coisa. Imagino que, com esse tipo de instituição, talvez eles tivessem recebido ajuda. Então faço isso com o maior prazer e esperando passar alguma coisa para essa meninada. Que a literatura possa tocá-los, porque ela é um meio de salvação”, disse Ignácio.

Momentos antes de começar a apresentação, um adolescente de 17 anos se preparava para a encenação teatral. Para ele, o Sarau Livro Solidário ajuda a reconquistar a confiança das pessoas. “A gente vê que aos poucos pega a confiança das pessoas. Aprendi a respeitar mais as pessoas e dar valor mais em mim e não fazer coisas erradas”, disse. Para outro interno, de 18 anos, as preparações para as apresentações aproximaram todos os adolescentes da equipe técnica, além de ajudar a sair dos alojamentos para praticar uma nova atividade.

A mãe de um dos socioeducandos disse perceber a evolução do filho dentro da unidade, pois ele passou a demonstrar mais carinho e afeto pelos familiares. “Aqui ele está progredindo e se tornando uma pessoa melhor, e espero que ele consiga mudar. Para mim é muito difícil, porque quando ele estava lá fora, eu pedia muito para mudar, e foi preciso cair aqui para isso acontecer. A gente era muito afastado e aqui toda a família se aproximou mais. Ele me trata melhor, me abraça, me cheira e me dá mais carinho”, disse.

Integração – Segundo o presidente da Fasepa, Simão Bastos, a programação é fruto de dedicação dos socioeducandos que participaram da atividade. Para ele, as apresentações mostram que é possível transformar a vida de adolescentes por meio da socioeducação. “Essa é uma construção coletiva com muita dedicação e que envolveu só nesta unidade 30 socioeducandos, desde a leitura das obras do autor até uma exposição cênica. Isso é fantástico porque mostramos que é possível construir uma socioeducação mais humana e digna”, declarou.

A Fasepa conta com um Espaço de Leitura Livro Solidário desde 2012, estimulando a leitura entre os adolescentes que cometeram atos infracionais e que cumprem medidas de internação. Desde 2011, início do projeto, já foram implantados seis espaços de leituras e doados 13,5 mil livros para mais de 30 instituições. Segundo Simão Bastos, a ideia é fortalecer parcerias com a Imprensa Oficial do Estado e a Secretaria de Estado de Cultura (Secult), e levar novos espaços de leitura para todas as unidades socioeducativas do Estado.

“A perspectiva de trabalhar a literatura no desenvolvimento dos meninos é fantástica. Esperamos desenvolver esse projeto em todas as unidades, para que tenhamos mais espaços de leitura e possamos trabalhar os sonhos de meninos e meninas. Somente trabalhando a perspectiva de mudança dos socioeducandos será possível construir uma nova sociedade. Os adolescentes terão uma possibilidade de reconfigurar as vidas, porque o livro reconstrói a nossa vida e faz a gente sonhar cada vez mais”, afirmou o presidente da Fasepa.

O presidente da Imprensa Oficial do Estado, Cláudio Rocha, destacou a importância de levar o projeto pela primeira vez a uma unidade socioeducativa, para estimular atividades voltadas para a produção de poesias, contos, peças de teatro, desenhos e demais manifestações artísticas, contribuindo para a transformação social de adolescentes privados de liberdade. “É a primeira vez que o projeto vai a um espaço de socioeducação, e nos sentimos importantes na recuperação desse adolescente e colocando mais um tijolinho na construção de seu futuro”, destacou.

O Sarau Livro Solidário é um projeto desenvolvido simultaneamente com a Feira Pan-Amazônica do Livro, levando autores convidados até escolas e outras instituições. Segundo a coordenadora da Feira do Livro, Andressa Malcher, é o momento de o público conhecer a história do autor, além de conhecer as atividades desenvolvidas nos espaços, como a de adolescentes que cumprem medidas de internação. “Estou maravilhada com essa experiência. Quando entrei com escritor na Fasepa ficamos emocionados. Foi muito mais lindo do que imaginávamos. É um trabalho de responsabilidade social muito grande e um momento de festa para eles”, ressaltou.