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Fundação ParáPaz alerta para importância do diálogo com crianças na prevenção de abusos

Profissionais reforçam que conversar sobre os limites do corpo e observar mudanças de comportamento são fundamentais para proteger crianças e adolescentes

Por Nathalia Mota (PARAPAZ)
16/04/2026 16h39

No Dia Estadual de Enfrentamento à Violência, Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes - 16 de Abril, a Fundação ParáPaz, órgão do Governo do Pará, reforça um alerta importante: a prevenção começa dentro de casa, com diálogo e orientação. Conversar com meninas e meninos sobre os limites do próprio corpo é uma forma de proteção, e pode ajudar a evitar situações de abuso.

Camila Sassim, psicóloga do CAI ParáPaz Santa Casa: orientar desde cedo ajuda a proteger

“A educação não estimula a atividade sexual. Muitos pais ainda acham que falar sobre isso pode incentivar os filhos de alguma forma. Mas, quando o assunto é tratado do jeito certo, ele protege e conscientiza. Se a criança não aprende em casa, acaba aprendendo de forma errada com coleguinhas ou até com estranhos”, explica a psicóloga Camila Sassim, que atua no Centro de Atendimento Integrado (CAI) ParáPaz Santa Casa, referência em Belém no atendimento especializado a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.

A assistente social Angélica Guerreiro, que também integra a equipe, reforça que esse diálogo ainda é um desafio para muitas famílias, seja por medo, vergonha ou por não saber como abordar o tema. Segundo ela, o silêncio pode acabar deixando a criança ainda mais vulnerável, por isso é importante conversar com naturalidade, usando palavras adequadas para a idade, reforçando sempre que o corpo deve ser respeitado.

“Conversamos muito com os pais para que expliquem às crianças, de forma lúdica, que ninguém pode tocar nas partes íntimas e que, se algo acontecer, elas devem contar imediatamente. O mais importante é que os pais saibam ouvir, e que a criança saiba que pode confiar e que não vai ser culpada”, ressalta.

Dinâmica do 'semáforo do toque' ensina crianças a identificar toques permitidos, inadequados e situações de alerta

Atendimento especializado - Além da prevenção, a Fundação ParáPaz atua no acolhimento de quem já passou por situações de abuso e violência. Em 2025, as unidades ParáPaz especializadas na Região Metropolitana de Belém registraram 1.241 casos, enquanto as Regionais apresentaram 1.397 casos, totalizando 2.638 ocorrências. Em 2026, até o mês de março foram registrados 623 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, sendo 282 na Região Metropolitana e 341 nas Regionais.

Somente no CAI Santa Casa, de janeiro a março, foram contabilizados 195 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, entre 2 e 17 anos. A maior incidência do perfil dos agressores está relacionada a pessoas conhecidas das vítimas, como pai, padrasto, tio, primo, namorado e outros parentes, o que evidencia que, na maioria das vezes, a violência ocorre dentro do próprio ciclo familiar. Por isso, as equipes reforçam que a atenção deve estar em todos os lugares, e que qualquer suspeita deve ser levada a sério.

Atividades lúdicas ajudam no entendimento sobre limites do próprio corpo e facilitam o acolhimento

A equipe realiza atendimento multiprofissional, dando apoio à vítima e à família. Com esse cuidado, muitas crianças conseguem, aos poucos, recuperar a confiança, voltar à rotina e enfrentar o trauma. No caso de crianças que ainda não conseguem explicar com clareza o que estão sentindo, a abordagem precisa ser diferente. Por isso, durante o acompanhamento são usados recursos lúdicos, que ajudam e facilitam a comunicação.

“O atendimento psicológico deve ser diferenciado, e nós, enquanto profissionais da saúde mental, devemos ampliar nosso repertório de ferramentas com massinha de modelar, panelinhas, bonecos, desenhos, pinturas e jogos educativos”, informou Angélica Guerreiro.

Assistente social Angélica Guerreiro: diálogo é essencial para proteger crianças e adolescentes

Recomeço - O acolhimento tem ajudado muitas famílias a recomeçar, e também mostra como a orientação e a atenção às mudanças de comportamento fazem diferença quando há suspeita. É o caso de M.C.S.M., mãe de uma menina de 9 anos, que conseguiu reconhecer a situação de abuso e contar o que estava acontecendo. A violência foi cometida pelo marido da tia materna, e a criança faz o acompanhamento psicológico na unidade.

“Quando aconteceu, ela se fechou por completo. Também piorou um pouco na escola. Quase não conversava e, quando falava, tinha medo porque achava que iam brigar com ela. Quando começou o acolhimento na ParáPaz, ela ainda tinha receio de falar. Mas, conforme foi sendo acolhida e tendo consultas, foi melhorando, voltando aos poucos a ser a criança que era antes, que gosta de conversar e brincar. Quando a gente sai da consulta, ela já me pergunta quando vai ser a próxima”, disse a mãe.